Por uma dessas cachorrices que amigas desalmadas cometem e que nem Cristo conseguiria explicar, acabei eu, numa quarta-feira à noite, sozinha no bar. Experiência única, confesso. Tinha me programado para tomar cerveja e comer um xis. Falta de companhia não iria impedir. Optei por uma mesa do lado de dentro (na rua ia ser muito mico). Sentei, pedi o cardápio: “uma Polar e um xis salada sem ovo”. O garçon fez cara de que iria perguntar “dois copos?”. Eu fiz cara de que a pergunta não seria bem-vinda. Ele se foi e voltou com a cerveja mais gelada que já tomei na vida. E um copo.
Nas mesas ao meu redor, casais, grupos de amigos, homens sozinhos. Entre olhar para o horizonte e ver televisão, fiquei com a segunda opção. Novela, Big Brother e... jogo do Inter! Sim, muito azar da minha parte. Mais homens começaram a chegar, irmanados por um sentimento futebolístico do qual eu estava muito distante. Me dei conta de que o bar iria encher de homens, que eu estava ali sozinha, com a minha cerveja incrivelmente gelada, e que seria alvo de comentários machistas, preconceituosos, descabidos.
O xis não demorou para chegar. Lá fui eu, com os talheres, devorá-lo. Mais homens devidamente fardados e ansiosos adentravam o recinto. Olho para o xis, olho para a porta, olho para os lados. Começou o jogo. Não sei se foi fruto da minha imaginação, mas lembro de ter ouvido, lá pelas tantas: “Se está sozinha, boa coisa não é”. Respirei fundo, o xis já estava quase no fim.
Doze minutos de jogo. Engoli o último pedaço. Virei o último copo. Peguei minha bolsa e saí de fininho, sem olhar para os lados. Com muita concentração, era preciso percorrer uma linha reta interminável até o caixa. Questão de vida ou morte! Paguei a conta e corri pra casa sem olhar para trás. Ser mulher pós-moderna não é tão fácil quanto eu imaginava.
sexta-feira, março 30, 2007
quarta-feira, março 21, 2007
Princípio
Redescobrir que se tem duas pernas, dois braços e um coração saudável significa acordar de um sono profundo, colocar o nariz pra fora de casa num domingo de sol, deixar o rosto sentir o calor, o vento, a rua. É preciso sentir a rua. Sozinho. Com os possíveis prazeres, com as prováveis dores. Ainda bem que se tem duas pernas, dois braços e um coração pronto para apanhar.
segunda-feira, março 12, 2007
Se até a uva passa
O Orkut não tinha me causado tanto desgosto até então:
Doze de março de 2007, onze horas da noite, Débora Cruz já respondeu os scraps do dia, já visitou alguns sites, já baixou um vídeo raro da Elis Regina. Eis que o e-mail do Terra pula: “Você tem 1 nova(s) mensagem(ns)”. Muito bem. “Orkut – Ricardo enviou um convite...”. Ok, alguém me adicionou. Fui ver quem era o tal Ricardo Santos. De primeira, não reconheci. Até aí normal, pois vira e mexe aparecem desconhecidos querendo amizades que meu instinto paranóico tende a reconhecer como vírus. Resolvi olhar o perfil da criatura. Deus do céu! Veja só: tratava-se de uma das piores recordações que tenho da 6ª, 7ª série, sei lá, já nem lembrava mais. Comecei a sentir algo estranho, que foi subindo e subindo e subindo. Socorro! Só eu sei o quão péssima foi a experiência de fazer um trabalho em grupo com tal elemento (era um trabalho de História, acho) e mais outros colegas. O que era pra ser uma reunião produtiva na casa do colega Ricardo acabou se tornando um complô para que eu ficasse com ele. Pobre Débora, bem inocente, com seus 13 anos, seus cadernos, seus livros, sua vidinha casa-escola-casa. O menino era impossível de encarar. Mas insistiu, me puxou pelo braço (grosso!), disse “Vem cá!” enquanto eu corria em direção à rua, em busca dos outros colegas (traidores), que me deixaram sozinha com aquele projeto de delinqüente me tirando para Chapeuzinho Vermelho. Que lembrança terrível da pré-adolescência.
Pois não é que o guri me acha no Orkut quase dez anos depois! Que pânico. Eu lembrei exatamente do desespero que senti naquela tarde, por isso a sensação estranha, que foi subindo e subindo e subindo. A parte boa é que agora, bem diferente do que ocorria naquele tempo, eu consigo rir disso tudo, achar trágico e cômico. Passou: ufa!
Doze de março de 2007, onze horas da noite, Débora Cruz já respondeu os scraps do dia, já visitou alguns sites, já baixou um vídeo raro da Elis Regina. Eis que o e-mail do Terra pula: “Você tem 1 nova(s) mensagem(ns)”. Muito bem. “Orkut – Ricardo enviou um convite...”. Ok, alguém me adicionou. Fui ver quem era o tal Ricardo Santos. De primeira, não reconheci. Até aí normal, pois vira e mexe aparecem desconhecidos querendo amizades que meu instinto paranóico tende a reconhecer como vírus. Resolvi olhar o perfil da criatura. Deus do céu! Veja só: tratava-se de uma das piores recordações que tenho da 6ª, 7ª série, sei lá, já nem lembrava mais. Comecei a sentir algo estranho, que foi subindo e subindo e subindo. Socorro! Só eu sei o quão péssima foi a experiência de fazer um trabalho em grupo com tal elemento (era um trabalho de História, acho) e mais outros colegas. O que era pra ser uma reunião produtiva na casa do colega Ricardo acabou se tornando um complô para que eu ficasse com ele. Pobre Débora, bem inocente, com seus 13 anos, seus cadernos, seus livros, sua vidinha casa-escola-casa. O menino era impossível de encarar. Mas insistiu, me puxou pelo braço (grosso!), disse “Vem cá!” enquanto eu corria em direção à rua, em busca dos outros colegas (traidores), que me deixaram sozinha com aquele projeto de delinqüente me tirando para Chapeuzinho Vermelho. Que lembrança terrível da pré-adolescência.
Pois não é que o guri me acha no Orkut quase dez anos depois! Que pânico. Eu lembrei exatamente do desespero que senti naquela tarde, por isso a sensação estranha, que foi subindo e subindo e subindo. A parte boa é que agora, bem diferente do que ocorria naquele tempo, eu consigo rir disso tudo, achar trágico e cômico. Passou: ufa!
quinta-feira, março 08, 2007
Águas
Março está aí, com suas águas que, segundo o velho Antonio Carlos, fecham o verão. Em breve terei mais leite do que cerveja na geladeira. Não serei mais tomada pelo impulso diário de me enfiar num bar à noite. Banhos gelados farão parte do passado. Ir a pé até a Lancheria do Parque depois das 22h representará um desafio torturante. Com o frio, chegará o enferrujamento do corpo, da boemia, das necessidades alcoólicas. Chato isso. Bem chato.
"É pau, é pedra, é o fim do caminho"
"É pau, é pedra, é o fim do caminho"
quinta-feira, fevereiro 15, 2007
Ou tem vocação...
A disposição para um estado constante de crise existencial deve nascer com a pessoa. Sabe aquele tipo de gente que se irrita com muita felicidade? Que vê na sensação de completude uma afronta às boas possibilidades de produção intelectual? Que gasta um cd ou dvd ouvindo 154 vezes a mesma música, remoendo a mesma melancolia e reinventando matizes para a sua insatisfação com sabe se lá o quê? Esse estado alterado de consciência pouco necessita da ajuda de substâncias estimulantes, mas elas podem contribuir, é claro. Basta que a criatura já tenha vindo ao mundo com vocação para o descontentamento. E que ainda por cima goste disso.
quinta-feira, janeiro 18, 2007
Coisa de criança
Não se faz mais aniversários de criança como antigamente. É certo que não. O fator determinante é que quase não há crianças nos aniversários de criança. Sério. Repare. A independência feminina tem um preço, e parte dele é pago pelas festinhas infantis. Aquela história de meninos e meninas correndo loucamente em volta das mesas, comendo docinhos sem parar e tomando coca-cola como se fosse a última vez na vida é coisa do passado. Essa moda de ter um único filho e olhe lá traz prejuízos.
O pequeno número de pessoinhas com menos de 12 anos em tais eventos chega a dar pena, pois a escassez de crianças tem reflexo direto na empolgação das brincadeiras, no parabéns, no momento de estourar o balão-surpresa, na trilha sonora.
Dia desses, fiquei a filosofar num aniversário de um aninho. Os muitos balões coloridos e a decoração do Ursinho Puff (poluída demais para o meu gosto) até que disfarçavam a falta de crianças, mas não resolviam o problema.
Se bem me lembro, quatro palhaços animavam a festa. Acho que eles se deram conta de que a maioria do público era composta por tios e tias. Então, resolveram inovar: chamaram os adultos (primeiro as mulheres, depois os homens) para a “dança da cadeira”. Olha, foi um sucesso!
A velharada se divertiu como nunca. O DJ detonou no funk. A festa bombou. E isso sem ninguém perceber que as crianças estavam apenas olhando. Passaram de protagonistas a coadjuvantes. Murcharam.
Eu fiquei a lembrar que na minha infância as festas com palhaços eram raríssimas, mas isso não tinha a mínima importância. Brincava-se de tudo, comia-se de tudo, e as crianças voltavam pra casa sujas (de tanto correr), enjoadas (de tanto comer negrinho e beber coca-cola) ou com galo na testa (de tanto cair). As mães piravam, e os pais não davam a mínima, afinal, era coisa de criança mesmo.
O pequeno número de pessoinhas com menos de 12 anos em tais eventos chega a dar pena, pois a escassez de crianças tem reflexo direto na empolgação das brincadeiras, no parabéns, no momento de estourar o balão-surpresa, na trilha sonora.
Dia desses, fiquei a filosofar num aniversário de um aninho. Os muitos balões coloridos e a decoração do Ursinho Puff (poluída demais para o meu gosto) até que disfarçavam a falta de crianças, mas não resolviam o problema.
Se bem me lembro, quatro palhaços animavam a festa. Acho que eles se deram conta de que a maioria do público era composta por tios e tias. Então, resolveram inovar: chamaram os adultos (primeiro as mulheres, depois os homens) para a “dança da cadeira”. Olha, foi um sucesso!
A velharada se divertiu como nunca. O DJ detonou no funk. A festa bombou. E isso sem ninguém perceber que as crianças estavam apenas olhando. Passaram de protagonistas a coadjuvantes. Murcharam.
Eu fiquei a lembrar que na minha infância as festas com palhaços eram raríssimas, mas isso não tinha a mínima importância. Brincava-se de tudo, comia-se de tudo, e as crianças voltavam pra casa sujas (de tanto correr), enjoadas (de tanto comer negrinho e beber coca-cola) ou com galo na testa (de tanto cair). As mães piravam, e os pais não davam a mínima, afinal, era coisa de criança mesmo.
terça-feira, janeiro 16, 2007
A banda do Zé Pretinho
De uns tempos pra cá eu percebi que meu pai deve ter sido uma das melhores companhias de bar que o eixo Guaíba-Porto Alegre já teve. Um dos motivos é que ele toma até cerveja quente. Desde que o copo esteja cheio, tá tudo certo. Não é alcoólatra. Lógico que não. Se fosse, eu não estaria achando tudo lindo. Mas a questão é que ele sabe que lugar de beber é em mesa de bar. Preferencialmente, com batuque. Batidas articuladas na mesa. Mão e madeira produzindo som. Samba. Samba antigo.
Eu demorei para perceber isso, pois há tempos ele abandonou a vida boêmia. Aposentou as madrugadas etilicamente musicais precocemente, antes dos 30 anos, por conta dos muitos pedidos da minha mãe. Reprimiu a vontade. Sufocou até que ela perdesse o ar. Acontece que um dia as filhas cresceram e se mostraram simpáticas aos botecos esfumaçados da Capital, fato que ele não consegue reprovar. Assim, se o telefone toca e eu estou a beber com os amigos, admito:
– Tá em casa?
– Pai, tô tomando uma cervejinha...
– Hahahahaha...
Ele ri. Sente e entende. Diferente da minha mãe, que quase desliga na cara. O pai sabe o valor que tem uma madrugada com os amigos. Sabe que o tempo não volta. Dá risada como um cúmplice. Acha que é “coisa de jornalista mesmo”. Vê graça.
Além de ser chegado em algumas bebidas, papi tem o dom de contar histórias muito bem, característica que pode fazer com que um dia ainda vire escritor. Enquanto isso, ele se realiza com uma filha jornalista.
Mas a coordenação com que batuca as músicas do Jorge Ben não deixa dúvidas sobre suas experiências noturnas e musicas.
– A banda do Zé Pretinho chego-o-u, pá-ra-a-a animar a festa...
“Hum... ele sabe até a letra...” Queria poder ver esse jovem senhor batucando e contando causos em mesa de bar. É por isso que qualquer hora vou arrastá-lo para o Bar do Marinho, reduto porto-alegrense da boa música e da cerveja barata. Sem a mãe saber, claro.
– Pai, já pro boteco!
Eu demorei para perceber isso, pois há tempos ele abandonou a vida boêmia. Aposentou as madrugadas etilicamente musicais precocemente, antes dos 30 anos, por conta dos muitos pedidos da minha mãe. Reprimiu a vontade. Sufocou até que ela perdesse o ar. Acontece que um dia as filhas cresceram e se mostraram simpáticas aos botecos esfumaçados da Capital, fato que ele não consegue reprovar. Assim, se o telefone toca e eu estou a beber com os amigos, admito:
– Tá em casa?
– Pai, tô tomando uma cervejinha...
– Hahahahaha...
Ele ri. Sente e entende. Diferente da minha mãe, que quase desliga na cara. O pai sabe o valor que tem uma madrugada com os amigos. Sabe que o tempo não volta. Dá risada como um cúmplice. Acha que é “coisa de jornalista mesmo”. Vê graça.
Além de ser chegado em algumas bebidas, papi tem o dom de contar histórias muito bem, característica que pode fazer com que um dia ainda vire escritor. Enquanto isso, ele se realiza com uma filha jornalista.
Mas a coordenação com que batuca as músicas do Jorge Ben não deixa dúvidas sobre suas experiências noturnas e musicas.
– A banda do Zé Pretinho chego-o-u, pá-ra-a-a animar a festa...
“Hum... ele sabe até a letra...” Queria poder ver esse jovem senhor batucando e contando causos em mesa de bar. É por isso que qualquer hora vou arrastá-lo para o Bar do Marinho, reduto porto-alegrense da boa música e da cerveja barata. Sem a mãe saber, claro.
– Pai, já pro boteco!
sexta-feira, janeiro 05, 2007
...
Escritor ruim + revisão mal feita = milhões de erros a serem marcados a caneta por uma leitora paranóica.
quarta-feira, janeiro 03, 2007
People are strange ou 2007 está aí
Descobri coisas importantes no Ano-Novo. E estranhas. Acampei em um camping que não conhecia. Como de costume em feriados relevantes, as áreas com sombra foram disputadíssimas, faltou luz mais vezes que o esperado e cada banho era um desafio (mais pelas longas filas do que pela sujeira no banheiro). Mas tive surpresas. Descobri que chapinha é coisa do passado entre as loiras. A moda é escovar a franja. Quando eu me dirigia para o banheiro no final da tarde com o kit-banho, encontrava as meninas em grupo, socializando o secador, espichando uma mecha devidamente separada do resto. Achei cômico. Pensei comigo: “Será que faz diferença secar só a parte da frente?”. Observei a obstinação com que elas escovavam os fios, mas continuei achando o resultado pouco representativo.
Outra revelação de peso: existe gente que bebe Salton em taça de champagne na cozinha do camping minutos antes da virada. Estranho. Bem estranho.
Pra terminar, descobri, na chegada a Porto Alegre, que minha mãe caiu de moto no feriadão. Hã? Minha mãe? Moto? Sim. Ainda estou assimilando isso. Ela pegou o veículo do meu irmão e resolveu aprender. Meu pai, sem muita didática, aconselhou: “É só acelerar.”. E foi o que ela fez. Só que o muro do pátio estava próximo. Resultado: mami estirada no concreto, moto por cima de mami, papi quase tendo ataque do coração (contendo o riso, claro), mami gritando loucamente. Ela contou que ainda sente dores no corpo e a culpa foi toda do maridinho. Disse que conseguiu dar uma volta na quadra com a minha tia depois, sem maiores problemas, e que gostou. “Gurias, vocês têm que aprender a dirigir a Biz!” Ok, ok.
2007 começa estranho...
Outra revelação de peso: existe gente que bebe Salton em taça de champagne na cozinha do camping minutos antes da virada. Estranho. Bem estranho.
Pra terminar, descobri, na chegada a Porto Alegre, que minha mãe caiu de moto no feriadão. Hã? Minha mãe? Moto? Sim. Ainda estou assimilando isso. Ela pegou o veículo do meu irmão e resolveu aprender. Meu pai, sem muita didática, aconselhou: “É só acelerar.”. E foi o que ela fez. Só que o muro do pátio estava próximo. Resultado: mami estirada no concreto, moto por cima de mami, papi quase tendo ataque do coração (contendo o riso, claro), mami gritando loucamente. Ela contou que ainda sente dores no corpo e a culpa foi toda do maridinho. Disse que conseguiu dar uma volta na quadra com a minha tia depois, sem maiores problemas, e que gostou. “Gurias, vocês têm que aprender a dirigir a Biz!” Ok, ok.
2007 começa estranho...
domingo, dezembro 03, 2006
Sobre como tatuadores podem ser pessoas legais
Três fatos ocorridos em seqüência me fizeram reconsiderar o que eu pensava a respeito de pessoas que ganham a vida marcando a pele de outras com tinta escura. Segue a historinha...
1) Na sala da recepção, entre um choque no estômago (sinônimo de nervosismo agudo) e um comentário clichê qualquer emitido para que o tempo parecesse passar mais rápido, eu ainda pensava na possibilidade de desistir. Quando minha companheira de sofrimento declarou que havia a possibilidade de ela ter que ir embora – culpa de uma carona imperdível para o litoral – e me deixar sozinha com a decisão de eternizar um desenho no corpo, proferi a frase infantil:
Débora: – Elô, mas como eu vou fazer a tatuagem se tu não estiver aqui?
Elo: [silêncio].
Tatuador: – Mas eu vou estar.
Sim, como um amigo íntimo, alguém da família, o rapaz estranho, possuidor de dezenas de tatuagens pelo corpo, fez com que eu me sentisse a pessoa mais segura do mundo. Então pensei: “Gente fina esse cara”. Pronto, eu não voltaria atrás Parte I.
2) Pouco antes de sentar na cadeira em que o serviço seria consumado, passei os olhos pela perna do tatuador – sem malícia, juro. Tinha de tudo. Mesmo. Desenhos diversos e de todas as cores imagináveis. Mas a surpresa maior foi ver a minha escolha – que era inédita até o momento – representada ali. Pensei: “Que merda, ô idéia comum que eu tive”. Sentei e ele falou:
Tatuador: – Posso te fazer uma pergunta?
Débora: – Claro [pensando, como assim?].
Tatuador: – Por que tu vai tatuar um ponto de interrogação?
Débora: – Não sei. Acho que é uma boa resposta, né?
Tatuador: – Eu perguntei porque também tenho um. E também não sei o porquê.
Pronto, eu não voltaria atrás Parte II.
3) Pelo nervosismo, ele notou que era a “minha primeira vez”. Preocupado, tentou me explicar como seria a dor quando a agulha começasse a perfurar a minha pele.
Tatuador: – Eu vou fazer só o início, só um pouquinho, pra tu ver como é a dor. Aí eu paro e a gente conversa, tá?
Débora: – Tudo bem [sem acreditar na fofura que era aquela pessoa].
Achei a dor suportável e informei que ele poderia seguir adiante. Cheguei à conclusão de que deve ser costume no estabelecimento indicar o respectivo rapaz para meninas histéricas que resolvem fazer a primeira tatuagem. Constatei que o tatuador realmente era uma pessoa bacana. Revi meus conceitos. Agora, tenho tatuagem.
1) Na sala da recepção, entre um choque no estômago (sinônimo de nervosismo agudo) e um comentário clichê qualquer emitido para que o tempo parecesse passar mais rápido, eu ainda pensava na possibilidade de desistir. Quando minha companheira de sofrimento declarou que havia a possibilidade de ela ter que ir embora – culpa de uma carona imperdível para o litoral – e me deixar sozinha com a decisão de eternizar um desenho no corpo, proferi a frase infantil:
Débora: – Elô, mas como eu vou fazer a tatuagem se tu não estiver aqui?
Elo: [silêncio].
Tatuador: – Mas eu vou estar.
Sim, como um amigo íntimo, alguém da família, o rapaz estranho, possuidor de dezenas de tatuagens pelo corpo, fez com que eu me sentisse a pessoa mais segura do mundo. Então pensei: “Gente fina esse cara”. Pronto, eu não voltaria atrás Parte I.
2) Pouco antes de sentar na cadeira em que o serviço seria consumado, passei os olhos pela perna do tatuador – sem malícia, juro. Tinha de tudo. Mesmo. Desenhos diversos e de todas as cores imagináveis. Mas a surpresa maior foi ver a minha escolha – que era inédita até o momento – representada ali. Pensei: “Que merda, ô idéia comum que eu tive”. Sentei e ele falou:
Tatuador: – Posso te fazer uma pergunta?
Débora: – Claro [pensando, como assim?].
Tatuador: – Por que tu vai tatuar um ponto de interrogação?
Débora: – Não sei. Acho que é uma boa resposta, né?
Tatuador: – Eu perguntei porque também tenho um. E também não sei o porquê.
Pronto, eu não voltaria atrás Parte II.
3) Pelo nervosismo, ele notou que era a “minha primeira vez”. Preocupado, tentou me explicar como seria a dor quando a agulha começasse a perfurar a minha pele.
Tatuador: – Eu vou fazer só o início, só um pouquinho, pra tu ver como é a dor. Aí eu paro e a gente conversa, tá?
Débora: – Tudo bem [sem acreditar na fofura que era aquela pessoa].
Achei a dor suportável e informei que ele poderia seguir adiante. Cheguei à conclusão de que deve ser costume no estabelecimento indicar o respectivo rapaz para meninas histéricas que resolvem fazer a primeira tatuagem. Constatei que o tatuador realmente era uma pessoa bacana. Revi meus conceitos. Agora, tenho tatuagem.
segunda-feira, novembro 20, 2006
Paradigma da Complexidade
No número 79 da rua Jerônimo Coelho, distribuídas em dois andares, meninas querem alisar as madeixas, senhoras aguardam mais de meia hora com rolos coloridos na cabeça para, depois, ver seus fios de cabelo escassos transformados em volumosos penteados, mulheres bem vestidas colorem as unhas, têm os pêlos depilados, os olhos maquiados. Ao mesmo tempo, cabeleireiros e manicures inventam soluções para os mais diversos problemas. Desde cabelos difíceis até unhas do pé impossíveis. A rotina é essa, pelo menos de terça-feira à sábado, no salão de beleza Danilo Cabeleireiros. Sim, é Danilo Cabeleireiros, e não Danilo’s Hair.
A localização é estratégica. O estabelecimento fica entre a avenida Borges de Medeiros e a Praça da Matriz, no centro de Porto Alegre. Tal posição faz com que grande parte das clientes seja formada por funcionárias da Assembléia Legislativa e do Palácio Piratini. O cheiro de produtos de beleza nada baratos pode ser sentido no ar. Um luxo. Sonoramente, além do burburinho inquieto das conversas entre cabeleireiros ligeiros e clientes com sede de beleza, escuta-se o barulho frenético e não muito agradável de secadores de cabelo das mais diferentes cores...
*A pessoa entra na faculdade lendo Caros Amigos e termina o curso assinando a Trip. Além disso, escreve matérias sobre salão de beleza, por livre e espontânea vontade. Nem o Morin explicaria tal fenômeno complexo.
A localização é estratégica. O estabelecimento fica entre a avenida Borges de Medeiros e a Praça da Matriz, no centro de Porto Alegre. Tal posição faz com que grande parte das clientes seja formada por funcionárias da Assembléia Legislativa e do Palácio Piratini. O cheiro de produtos de beleza nada baratos pode ser sentido no ar. Um luxo. Sonoramente, além do burburinho inquieto das conversas entre cabeleireiros ligeiros e clientes com sede de beleza, escuta-se o barulho frenético e não muito agradável de secadores de cabelo das mais diferentes cores...
*A pessoa entra na faculdade lendo Caros Amigos e termina o curso assinando a Trip. Além disso, escreve matérias sobre salão de beleza, por livre e espontânea vontade. Nem o Morin explicaria tal fenômeno complexo.
quinta-feira, novembro 16, 2006
É porque dói na alma...
Quando ouvi a Cíntia Moscovitch contar que não abria os livros escritos por ela depois de impressos, achei estranhíssimo, quase impossível, uma insanidade. Pensei comigo: como ela não aproveita para curtir o filho depois do nascimento?
No entanto, a justificativa da referida escritora se revelou sábia: “Sempre tem um erro que ninguém viu, repetição de palavras ou falha de editoração”. Achei compreensível, mas, ainda assim, exagero. Agora entendo plenamente o drama da Cíntia. Cada vez que pego a monografia para dar uma olhada “de leve” encontro erros bizarros e imperdoáveis. Dói o coração, pois não tem volta. São equívocos que vão ficar para a posteridade. Mas, veja bem, se até a Cíntia Moscovitch passa por isso...
Tá decidido: não olho mais!
No entanto, a justificativa da referida escritora se revelou sábia: “Sempre tem um erro que ninguém viu, repetição de palavras ou falha de editoração”. Achei compreensível, mas, ainda assim, exagero. Agora entendo plenamente o drama da Cíntia. Cada vez que pego a monografia para dar uma olhada “de leve” encontro erros bizarros e imperdoáveis. Dói o coração, pois não tem volta. São equívocos que vão ficar para a posteridade. Mas, veja bem, se até a Cíntia Moscovitch passa por isso...
Tá decidido: não olho mais!
quarta-feira, outubro 25, 2006
E depois.
Duas coisas me atormentam atualmente: o fato de que sou quase jornalista (até banida da grande imprensa – devido a corte de gastos – eu já fui, ponto importante no currículo) e a tragédia de estar produzindo uma monografia interminável. Por que tudo é mais interessante que escrever e finalizar o trabalho de uma vez? Até pintar as unhas de esmalte cor café parece mais atraente do que encarar o bendito arquivo do word. Ou comer plic-plac e tomar chimarrão. Ou ligar pra minha mãe e discutir os gastos da formatura. Ou ler o caderno Viagem da ZH. Ninguém me avisou que parir a monografia era tão difícil. E se alguém avisou, eu não acreditei. Mas a pior parte, com certeza, ainda está por vir. Mais dolorido que terminar a mono deve ser acordar no dia seguinte à formatura.
P.S. O ponto no título é homenagem ao jornal O Sul.
P.S. O ponto no título é homenagem ao jornal O Sul.
quarta-feira, setembro 06, 2006
domingo, setembro 03, 2006
Infância
Primeira série, sete anos de idade, paredes coloridas de uma sala de aula antiga, o piso um tanto quanto velho e sujo. A madeira rangia quando a gente pisava. Classes verdes e cadeiras de madeira escura. Cerca de vinte alunos, talvez um pouco mais. Tocos de gente. A professora – linda, loira e olhos azuis – em nada ficava devendo à “Professora Helena”, do Carrossel. Um sonho de profe! Tudo lindo até o dia em que ela explicou como seria a avaliação dos aluninhos. Em vez de prova, faríamos uma atividade lúdica, mas valendo nota. A avaliação consistia em imitar uma propaganda de televisão. Só. Era fazer isso e passar de ano. E férias. Mais fácil impossível. Eu lembro dos colegas empunhando pastas de dente da “Colgate” e pronunciado constrangidos algo como: “Compre Colgate e seu sorriso ficará...”. Quando me dei conta que teria de atravessar a fila interminável de classes com cadeiras com projetos de pessoas à minha frente, segurar um produto e imitar alguma propaganda ridícula de TV diante do opressor quadro negro e dos mais opressores ainda olhares alheios, tive a exata certeza de que eu não faria o exercício. “Débora, tu tem que fazer, vai ficar sem nota.” Bem que a professora Lúcia Helena tentou, falou com jeitinho no início, depois foi incisiva: “Vais rodar”. Resolveu conversar com a minha mãe, que me chamou para um papo sério. “Mãe, eu rodo, mas não faço.” Eu lembro menos do pânico da vergonha iminente, e mais da absoluta convicção de que não enfrentaria a turma inteira. Eu queria ficar resguardada na minha timidez e fui chamada a me abrir ao mundo. A resposta foi não, definitivamente. Minha trajetória escolar recém começara. Aos sete anos, estava preparada para rodar, ficar um ano atrasada na escola, ser a desonra da família. Bom, para a psicóloga não ia adiantar me mandar, pois eu já freqüentava consultório a essa altura. Foram minutos, horas, dias de tortura. Colgate não, de jeito nenhum. Não faço e pronto. Repito de ano. Choro. Sapateio. É claro que isso deve ter gerado mais comentários na escola do que se eu tivesse feito a tarefa. Não teve jeito. Minha mãe ficou responsável por explicar à professora a dimensão da minha timidez sem fim. Acho que ela entendeu, pois passei de ano, rumo à segunda série. Eu e a minha fobia de olhares alheios.
* A professora Lúcia Helena, hoje com 51 anos, está no Orkut, linda, loira e com 252 amigos!
* A professora Lúcia Helena, hoje com 51 anos, está no Orkut, linda, loira e com 252 amigos!
quinta-feira, agosto 17, 2006
Perfil de um anônimo
Enquanto ele não gira a chave na ignição e os passageiros não ouvem o barulho do motor, aproveita para puxar conversa, mais uma de tantas, quase sempre começando por “vocês que são jornalistas, me digam o que vocês acham sobre...”. Se o assunto não vinga, ele encontra outro. Ou se mete nos comentários que circulam. Ou larga uma frase solta como “os meus filhos acham que eu sou banco, veja só como estão as coisas, essa garotada...”. Na maioria das vezes encontra um interlocutor disposto a trocar idéias, mesmo que 40% dos passageiros estejam completamente calados, sonolentos e pensando em chegar o mais rápido possível até suas camas. De segunda a domingo, exceto nos dias de folga, ele, cafuzo, cabelo afro, pele morena, olhos puxados, sorriso de Jair Rodrigues (os dentes brancos, parelhinhos e freqüentemente à mostra), tem a incumbência de deixar na porta de casa jornalistas e estagiários que vêem terminar mais um dia de trabalho.
Ele não é “o motorista”. É “o Sandro”. Pode ser que já tenha passado dos cinqüenta anos. Talvez tenha até cinqüenta e cinco, ou seis. O porte físico também se assemelha ao de Jair Rodrigues. Magro, mas nem tanto. Forte, mas nem tanto. Estatura média. O sotaque mostra que do Sul ele não é. Não chia como os cariocas, mas quase chega lá. Talvez por causa vida de caminhoneiro que levava pelo Brasil afora, seu sotaque original de amazonense tenha se diluído, se transformado em um falar híbrido. O fato é que, embora durante muito tempo tenha viajado pelo país, agora está fincado em Porto Alegre, e percorre diariamente um trecho simples. Mas ao mesmo tempo complexo. Tem de lembrar que hoje deve pegar primeiro a Avenida Ipiranga, já que a moça que desce próximo à Bento Gonçalves está de folga. Depois Santana, Venâncio Aires, Lima e Silva, José do Patrocínio. Depois centro, Demétrio Ribeiro e algumas outras. Deve pensar “moram bem esses jornalistas e ainda reclamam”.
Dirigindo, não é o exemplo maior de respeito às regras do trânsito. Tanto que às vezes é xingado por taxistas ou motoristas comuns, após cortar a frente de outro veículo ou fazer ultrapassagens em parte perigosas. Parar no sinal vermelho também não é o seu forte. Mas desde a primeira pessoa que deixa em casa, no bairro Medianeira, até a última, no Petrópolis, percorre com desenvoltura grandes avenidas e ruas estreitas.
No caso das mulheres, ele espera que elas coloquem a chave no portão do prédio. Da mesma maneira que fazem os pais ou tios, que não arrancam o carro enquanto enxergam alguma possibilidade de perigo. O mesmo zelo não é reservado aos homens. Deve pensar “esses se viram por aí”.
Sandro conta histórias. Dá risada. Sorri seu sorriso de Jair Rodrigues, que em alguns momentos chega a irritar de tão faceiro. Gosta de dirigir e de estar entre jornalistas, perto da notícia e das pessoas que a dão forma, tendo entre essas um pequeno poder, o de devolvê-las sãs e salvas às suas casas, aos seus filhos, maridos ou namorados, travesseiros e lexotans. Com um singelo, porém firme, “bom descanso”, às vezes oferecido apenas por educação, e noutras com carga profunda de sinceridade, abençoa quem desce do microônibus e entra novamente em seu mundo particular.
Ele não é “o motorista”. É “o Sandro”. Pode ser que já tenha passado dos cinqüenta anos. Talvez tenha até cinqüenta e cinco, ou seis. O porte físico também se assemelha ao de Jair Rodrigues. Magro, mas nem tanto. Forte, mas nem tanto. Estatura média. O sotaque mostra que do Sul ele não é. Não chia como os cariocas, mas quase chega lá. Talvez por causa vida de caminhoneiro que levava pelo Brasil afora, seu sotaque original de amazonense tenha se diluído, se transformado em um falar híbrido. O fato é que, embora durante muito tempo tenha viajado pelo país, agora está fincado em Porto Alegre, e percorre diariamente um trecho simples. Mas ao mesmo tempo complexo. Tem de lembrar que hoje deve pegar primeiro a Avenida Ipiranga, já que a moça que desce próximo à Bento Gonçalves está de folga. Depois Santana, Venâncio Aires, Lima e Silva, José do Patrocínio. Depois centro, Demétrio Ribeiro e algumas outras. Deve pensar “moram bem esses jornalistas e ainda reclamam”.
Dirigindo, não é o exemplo maior de respeito às regras do trânsito. Tanto que às vezes é xingado por taxistas ou motoristas comuns, após cortar a frente de outro veículo ou fazer ultrapassagens em parte perigosas. Parar no sinal vermelho também não é o seu forte. Mas desde a primeira pessoa que deixa em casa, no bairro Medianeira, até a última, no Petrópolis, percorre com desenvoltura grandes avenidas e ruas estreitas.
No caso das mulheres, ele espera que elas coloquem a chave no portão do prédio. Da mesma maneira que fazem os pais ou tios, que não arrancam o carro enquanto enxergam alguma possibilidade de perigo. O mesmo zelo não é reservado aos homens. Deve pensar “esses se viram por aí”.
Sandro conta histórias. Dá risada. Sorri seu sorriso de Jair Rodrigues, que em alguns momentos chega a irritar de tão faceiro. Gosta de dirigir e de estar entre jornalistas, perto da notícia e das pessoas que a dão forma, tendo entre essas um pequeno poder, o de devolvê-las sãs e salvas às suas casas, aos seus filhos, maridos ou namorados, travesseiros e lexotans. Com um singelo, porém firme, “bom descanso”, às vezes oferecido apenas por educação, e noutras com carga profunda de sinceridade, abençoa quem desce do microônibus e entra novamente em seu mundo particular.
sexta-feira, julho 28, 2006
Tens o telefone dele?
Descobri que quero segurar o tempo e entrevistá-lo. Ele faz o que quer com a gente, assim, no mais. Simplesmente não dá. Não é justo. Alguém precisa dar um jeito nisso!
No momento, sinto que preciso congelar o último semestre da faculdade de Jornalismo. As aulas ainda nem começaram e eu já iniciei a listagem mental de tudo que sentirei falta quando a formatura chegar (amigos – conhecidos – aulas legais – aulas chatas – os professores de verdade – o capuccino – a cerveja da sexta-feira à noite). Alguém por aí tem o contato do tempo? Se não tiverem o telefone, pode ser o e-mail mesmo.
No momento, sinto que preciso congelar o último semestre da faculdade de Jornalismo. As aulas ainda nem começaram e eu já iniciei a listagem mental de tudo que sentirei falta quando a formatura chegar (amigos – conhecidos – aulas legais – aulas chatas – os professores de verdade – o capuccino – a cerveja da sexta-feira à noite). Alguém por aí tem o contato do tempo? Se não tiverem o telefone, pode ser o e-mail mesmo.
quinta-feira, julho 20, 2006
A frase
Tudo acaba. Desde o amor até a Varig.
Não podia deixar a frase passar em branco, mas a autoria eu não divulgo.
Não podia deixar a frase passar em branco, mas a autoria eu não divulgo.
quarta-feira, junho 14, 2006
Já que alguns loucos gostaram...
Na disciplina de Produção de Revista, fomos chamados a escrever uma crônica. Tema livre (nada me dá mais medo). Superei a crise de inspiração e cumpri a tarefa. Aí vai o texto me custou uma noite de sono:
O mito da quantificação
Quantas Barbies enfileiradas seriam suficientes para dar uma volta ao mundo? Trezentos e sessenta e cinco miligramas de silicone é muito, bom ou pouco? Quantos casos Deborah Secco teve nos seis meses que antecederam seu namoro com o músico Falcão? Três anos é o tempo que um bom casamento leva para entrar em crise?
Jornais, revistas e internet vomitam diariamente estatísticas, probabilidades, números inutilmente valorizados. E lá vai a sociedade, anestesiada com a enxurrada de informações que recebe, incorporando o mito da quantificação. O amor, o prazer, a dor, a saudade, a angústia, o vazio: tudo é quantificável, medido. A vida é número, acredite! Tudo em cinco vezes sem juros. Desconto de 10% à vista ou no cartão. Tudo por R$ 1,99.
O que dizer do melhor amigo do homem? Sim, o celular. Sem ele ninguém vive. Alguns aparelhinhos luminosos, vibrantes e barulhentos têm capacidade para armazenar 500 números de telefone. Agora, alguém me diz, pra que isso? Providos de calculadora, cronômetro, calendário, despertador, ajudam os pobres mortais a tentar parar o tempo, que escorrega, foge, some. Não existe mais. Passou.
A sensação é de que vivemos numa permanente contagem. E regressiva. Horas, minutos, segundos. O tempo passa cada vez mais rápido. O dia ideal deveria ter, no mínimo, 30 horas. As 24 que temos não dão para nada. O próximo ônibus passa daqui a 15 minutos. Até as duas, mulher não paga. Corra, senão sai mais caro. Calcule, para ver se dá tempo.
Na televisão, mais números. A bolsa de valores, os últimos dados de pesquisas do IBGE, da FEE, do DIEESE, concorrem no quesito relevância com a previsão do tempo, que cada vez ganha mais espaço. Saber as máximas, mínimas e médias do dia é indispensáveis para quem está prestes a pôr o nariz para fora de casa. E se no aconchego do lar não deu para ver que temperatura fazia lá fora, as avenidas das grandes cidades salvam! Informam hora e temperatura exatas. Minutos e graus, perfeito, espetacular.
Números, muitos números, para alimentar uma sociedade na qual as pessoas fingem que somam, que multiplicam, quando na verdade subtraem o que vale à pena. Quantifiquemos, para agüentar viver o “menos pior”.
O mito da quantificação
Quantas Barbies enfileiradas seriam suficientes para dar uma volta ao mundo? Trezentos e sessenta e cinco miligramas de silicone é muito, bom ou pouco? Quantos casos Deborah Secco teve nos seis meses que antecederam seu namoro com o músico Falcão? Três anos é o tempo que um bom casamento leva para entrar em crise?
Jornais, revistas e internet vomitam diariamente estatísticas, probabilidades, números inutilmente valorizados. E lá vai a sociedade, anestesiada com a enxurrada de informações que recebe, incorporando o mito da quantificação. O amor, o prazer, a dor, a saudade, a angústia, o vazio: tudo é quantificável, medido. A vida é número, acredite! Tudo em cinco vezes sem juros. Desconto de 10% à vista ou no cartão. Tudo por R$ 1,99.
O que dizer do melhor amigo do homem? Sim, o celular. Sem ele ninguém vive. Alguns aparelhinhos luminosos, vibrantes e barulhentos têm capacidade para armazenar 500 números de telefone. Agora, alguém me diz, pra que isso? Providos de calculadora, cronômetro, calendário, despertador, ajudam os pobres mortais a tentar parar o tempo, que escorrega, foge, some. Não existe mais. Passou.
A sensação é de que vivemos numa permanente contagem. E regressiva. Horas, minutos, segundos. O tempo passa cada vez mais rápido. O dia ideal deveria ter, no mínimo, 30 horas. As 24 que temos não dão para nada. O próximo ônibus passa daqui a 15 minutos. Até as duas, mulher não paga. Corra, senão sai mais caro. Calcule, para ver se dá tempo.
Na televisão, mais números. A bolsa de valores, os últimos dados de pesquisas do IBGE, da FEE, do DIEESE, concorrem no quesito relevância com a previsão do tempo, que cada vez ganha mais espaço. Saber as máximas, mínimas e médias do dia é indispensáveis para quem está prestes a pôr o nariz para fora de casa. E se no aconchego do lar não deu para ver que temperatura fazia lá fora, as avenidas das grandes cidades salvam! Informam hora e temperatura exatas. Minutos e graus, perfeito, espetacular.
Números, muitos números, para alimentar uma sociedade na qual as pessoas fingem que somam, que multiplicam, quando na verdade subtraem o que vale à pena. Quantifiquemos, para agüentar viver o “menos pior”.
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