quarta-feira, janeiro 28, 2009

As mães e a inocência

Terraço da Casa de Cultura Mario Quintana, no Centro de Porto Alegre, por volta das 16h30min de um domingo escaldante. Na companhia de minha mãe, comemoro a chegada dos pedidos feitos ao garçom:

eu
- Nossa! Eu tava louca por um chope!

ela
- Eu achei que tu ia querer sorvete.

Em nome do bom senso


Depois de ir a 1.327 formaturas, me sinto capaz de dar algumas instruções.

Convidadas:
Favor evitar decotes-sem-noção, roupas levemente transparentes e vestidos que deveriam ser usados na cerimônia de entrega do Oscar. Fica parecendo que a pessoa não sabe que está em uma universidade ou faculdade.

Formandos:
Para os que têm direito a fazer um pequeno discurso quando pegam o canudo, não é muito interessante começar a fala por: "Em primeiro lugar, eu quero agradecer a minha família...", pelo simples fato de que 85% dos formandos farão o mesmo. Favor evitar frases do tipo: “Agradeço o meu pai, que embora tenha todos os defeitos do mundo...”. É formatura e não lavação de roupa suja.

Oradores:
Peloamordedeus, chega dessa história de: "Quem poderá esquecer das festas na casa da Marcinha? E do mau humor do Gabriel a cada manhã? E quando todos foram mal na primeira prova do primeiro semestre da primeira disciplina de seiláoquê?". Ah, por favor, não citem a "pastelina do bar" como uma das maravilhas dos quatro anos vividos na faculdade.

Nas recepções:
Formandos e pais: Não sabem se têm capacidade para discursar? Não discursem. Será melhor para todos.
Convidados: Têm problemas com bebida liberada? Comam antes de beber sem medida. Nunca é demais lembrar. E comportem-se, principalmente se a sua presença é, de fato, relevante para o evento.

Nos bailes:
Para os homens: Não sabem dançar? Não tentem. Bebam. É isso que as mulheres esperam de vocês mesmo.
Para o DJ: Não é todo mundo aderiu à moda “tecno”. Tunti-tunti pode até tocar, mas não a noite inteira. O mesmo serve para funk e pagode. Hits pré-históricos como Whisky a Go-go não precisam ser lembrados.
Para as mulheres: Mesmo que você tenha bebido todas e não saiba mais em que planeta está, dançar o Créu como se ninguém estivesse vendo é constrangedor para todos. Não precisa.

Por último:
Aproveite tudo porque nenhum segundo vivido e sentido neste dia será vivenciado novamente. É uma vez e deu.

terça-feira, janeiro 20, 2009

Gancho


Hoje, quando você ligar a televisão ou der uma olhada nos jornais, entre os assuntos principais estará a posse do primeiro presidente negro dos Estados Unidos, Barack Obama. O cenário é a cidade planejada de Washington, D.C. Aproveitando o gancho da posse mais badalada de todos os tempos, falarei um pouco sobre a cidade – seus prós e contras – e mostrarei algumas das milhares de fotos que bati por lá.

*como escrevi algumas linhas sobre a minha “experiência internacional” e nunca publiquei, os meus dramas também farão parte do texto que segue



“Maior do mundo”

Se o objetivo é tirar uma foto em frente à Casa Branca, outra no Pentágono e a última no Capitólio, um dia em Washington, D.C. é suficiente. Mas se você procura mais que um retrato posado junto aos símbolos do poder norte-americano, precisará de, no mínimo, dez dias na capital dos EUA.



A cidade, que tem cerca de 570 mil habitantes, é linda, limpa, rica em opções culturais e cosmopolita. Foi planejada em 1870, pelo primeiro presidente norte-americano, George Washington, para abrigar a sede do governo.



A grandeza está nos prédios públicos, muitos deles em mármore branco, nas grandes avenidas, nos vários monumentos construídos em referência a grandes líderes da história do país. É sede do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional. Para os jornalistas e interessados, uma das grandes atrações é o complexo Watergate.



O que quase não se fala no Brasil é que a cidade tem um número elevado de moradores de rua, os quais, em sua maioria, vivem nas praças e se alimentam em McDonald’s e afins (mendigo fino). Além disso, Washington, D.C. tem um dos índices de homicídios mais altos do país. A região da Casa Branca, inclusive, é perigosa à noite. Parte considerável da população é proveniente de El Salvador – restaurantes salvadorenhos são vistos aos montes. Brasileiros? Quase não se encontra. É uma boa cidade para praticar o inglês. Ou o espanhol.



Há o que fazer?

Sim, e muito. Dezesseis museus gratuitos circundam o National Mall, uma espécie de praça, gramado ou parque. Todos integram o Smithsonian Institute, maior complexo de museus do mundo. O Mall, como é chamado, fica entre o Capitólio e o Monumento a George Washington, um obelisco que está entre as estruturas mais altas do mundo. Muita coisa nesta cidade se intitula “mais do mundo”. It’s the U.S.



Ao redor da praça estão o Holocaust Memorial Museum, National Air and Space Museum, National Gallery of Art, National Museum of Natural History, National Museum of American History, National Museum of African Art e mais uns tantos. Para quem gosta de museu, é programa para uma semana inteira. Além dos gratuitos, existem diversos outros, como o Spy Museum, que conta a história da espionagem, e o Newseum, o museu da notícia, inaugurado em 2008 e que aborda a história da imprensa de forma interativa e moderna.



Vá de táxi

Se os museus são de primeiro mundo, o mesmo não se pode falar do transporte público. O metrô, embora lindíssimo, limpo e mais barato que o de Nova York (quem anda dentro de Washington paga de US$ 1,35 a US$ 1,75), serve principalmente os pontos turísticos e cidades vizinhas dos Estados de Maryland e Virgínia.



Caso a sua programação fuja um pouco disso, terá de pegar ônibus. Esteja preparado para o chá de banco na parada, principalmente no fim de semana. Táxi acaba sendo uma boa opção, ainda mais à noite, já que a cidade tem fama de ser uma das mais violentas dos EUA e só pessoas sem juízo, como eu, se arriscam a encarar o bus às 2h da manhã, na companhia de passageiros mal-encarados.



Nightlife

A vida noturna se divide basicamente entre dois bairros, Adams Morgan e Georgetown. O primeiro, mais popular; o segundo, sofisticado. Por uma questão de afinidade (e também considerando o meu poder aquisitivo), circulei mais por Adams Morgan, que reúne bares e restaurantes étnicos. E adorei. Na primeira semana, fui sozinha ao Ghana Cafe, um bar africano. Tomei uma Heineken a US$ 5 (que dor no bolso), sentada junto ao balcão, ouvindo reggae (concessões que a gente faz quando viaja). Acabei ficando amiga do garçom, um ganense simpático. O problema de uma moça-que-viaja-sozinha-mas-tem-namorado é que só pessoas do sexo masculino se aproximam para conversar. E nunca querem só conversar. O garçom, por exemplo, após alguns minutos de papo sobre futebol e carnaval, começou a dar “beliscadas” na minha cintura quando, entre um pedido e outro, passava por mim. Neste momento, você constata: já bebeu, já treinou o inglês e é hora de picar a mula. Na próxima saída noturna, vai a outro bar.



New York é logo ali

Ir de Washington, D.C. a Nova York é uma barbada. A passagem de ônibus é barata (cerca de US$ 40 ida e volta) e a viagem dura aproximadamente quatro horas. Fui em uma sexta-feira e voltei no domingo, sozinha. É impossível conhecer a cidade em tão pouco tempo, mas dá para garantir uma ida ao Central Park, uma caminhada pela Times Square, uma voltinha noturna no Greenwich Village.



E para quando bater o tédio de estar viajando sozinha, o negócio é “se perder”. Andar e andar.



Foi assim, perdida depois de caminhar quilômetros, que eu dei de cara com uma Oktoberfest animadíssima no Central Park. Sem ingresso, entrei de penetra. E não me arrependo. A festa com os alemães está entre as melhores recordações que guardo da viagem.



Ônibus DC-NY:

Ao menos três empresas diferentes fazem o serviço. Reserve (principalmente se pretende viajar no fim de semana, já que muitas pessoas terão a mesma idéia).

*Washington Deluxe Bus
http://www.washny.com

*Dragon Deluxe
http://www.dragondeluxe.com

*Go to Bus
http://www.gotobus.com/washingtondc

Onde sair:

*Bateu o banzo? O Bossa oferece brazilian music às terças-feiras, com show do grupo Clube do Samba, e não cobra ingresso. No fim de semana, ritmos latinos.

Bossa Bistro & Lounge
18th Street, 2463, NW, Washington, DC
www.bossaproject.com


*Começou a pensar que seria melhor ter ido para a África? Ghana Café, no bairro boêmio Adams Morgan, resolve. Os shows de reggae no fim de semana reúnem gente de Ghana, Gabão, Costa do Marfim etc. Oferece comida e bebidas africanas.

Ghana Cafe
18th Street, 2465, NW, Washington, DC
www.ghanacafe.com


*Restaurante e bar latino-americano Rumba Café: há shows de salsa, tango e às vezes rola música brasileira. Caipirinhas e mojitos fazem parte do cardápio. Não cobra ingresso.

Rumba Café
18th Street, NW, 2443, Washington, DC
www.rumbacafe.com


*Música americana e bandas alternativas? O Black Cat conta com shows de bandas independentes de pop e indie rock. O preço varia de acordo com a atração. É bacana.

Black Cat
14th Street, 1811, NW, Washington, DC
www.blackcatdc.com


Onde comer:
No momento em que enjoar de fast food e o desespero bater, vá ao Vapiano, onde se encontra massa bolonhesa, carbonara, etc, pagando cerca de US$ 9,00. O prato é reforçado.



Vapiano (comida italiana – e boa – a preços aceitáveis)
18th Street próximo à M Street, NW, Washington, D.C.
www.vapianointernational.com


Impressões

Com a desculpa de aprimorar o inglês, embarquei no início de setembro para Washington, D.C. O plano incluía um mês de aulas do idioma na capital dos Estados Unidos (com a missão de aproveitar ao máximo a cidade), mais uma ida de fim de semana a Nova York. As economias de toda uma vida foram aplicadas no projeto – veja bem, não é fácil passar um mês brincando de estudante no antro do capitalismo com o salário que recebem os jornalistas do Brasil. Foram 28 dias de contato com uma cultura nova e nem sempre receptiva. No entanto, a aventura compensa. Ao fim da viagem, acabei deixando um pouquinho de mim em D.C. Ficaram por lá uma penca de medos. Voltei mais corajosa, menos etnocêntrica e louca para planejar a próxima viagem.



The book is on the table

As primeiras tentativas de comunicação em solo estadunidense foram traumáticas. A sensação era de que eu estava na China. Meu inglês “tabajara”, adquirido em cursinhos nada baratos feitos durante a adolescência, não deu conta do recado. E os nomes de tudo em inglês? E quem disse que eu lembrava que chinelo é flip-flop?



Samba? Carnaval? Futebol?

Casa de família. Sim, eu tive coragem de fazer esta opção. E graças a Deus o meu quarto era imenso e distante do resto da casa, o café da manhã era farto e incluía granola, a residência, bem localizada.





Melhor ainda é que não existia uma “família”, apenas a dona da casa, uma ex-professora universitária e atual empresária de 50 e poucos anos, e outra hóspede, Carolina, 26 anos, advogada, colombiana e gente fina.

Ainda no Brasil, havia preparado na minha cabeça, in English, uma espécie de palestra sobre o Brasil: Carnaval, samba, futebol. Ia dizer que a coisa não é bem assim, que as brasileiras não passam o ano rebolando, etc. e tal. Para minha surpresa, a dona da casa não perguntou nada. Nem como foi o vôo. De cara me apresentou os eletrodomésticos malucos da cozinha, me deu aulas sobre como ligar e desligar o alarme cada vez que eu saísse ou entrasse em casa. Eu entendi 60% das explicações. Pânico.

A primeira semana foi o caos. Casa estranha, cidade estranha, pessoas estranhas,comida estranha.



Tudo parecia uma conspiração: o ônibus exige que se tenha o valor exato da passagem. A quantia (US$ 1,35) deve ser depositada em uma maquininha, já que não existe cobrador. E se tu não tiveres o dinheiro trocado? Te ferrou, Parte I. A máquina não dá troco e não liga se tu és turista e ninguém te avisou que seria assim.



No metrô, não há uma tabela, placa ou cartaz informando os preços. E de novo tu tens que inserir a grana em uma máquina para comprar o bilhete – esta dá troco, graças a Deus. Os valores variam de acordo com o destino final do passageiro e com o horário. Na hora do rush, andar de metrô sai mais caro. E para descobrir tudo isso sozinha? Te ferrou, Parte II.

Crééééééu

O curso de inglês, cujo valor eu quase precisei vender um rim para pagar, era (sendo generosa) patético. Primeiro: o professor não era americano, e sim coreano. Segundo: as aulas eram do tipo “leia este texto pouco interessante e discuta com o seu colega”. Terceiro (e mais grave): a professora da parte da tarde trabalhava com músicas e palavras-cruzadas. É sério. No primeiro dia ela apareceu com My Way, do Frank Sinatra. Me segurei na cadeira.

Mas nem tudo é choradeira. A troca de experiências entre os colegas foi riquíssima. Passar quatro semanas convivendo com sul-coreanos, colombianos, europeus e árabes fez o curso valer a pena. Cada dia significava uma aula de antropologia.



Não é sempre que a gente olha para o lado e pode trocar uma idéia com um colega do Iêmen sobre a economia global.

No final de uma das aulas, enquanto eu me gabava sobre quão divertido é o nosso Brasil varonil, citando Carnaval, entre outras mobilizações nacionais – os coreanos ouviam as minhas explicações com brilho nos olhos –, um colombiano chamado Alex me trouxe de volta à realidade.

Ele: – Ah, sim, eu tenho um amigo brasileiro que me mostrou um vídeo esses tempos, uma mulher dançando o “créu” – ao final da frase, um sorrisinho desnecessário.
Eu: – É...
Um buraco onde eu pudesse me enfiar, por favor. O Brasil parece bem mais divertido quando a gente olha de fora. Pensei, mas não disse.



E o planeta?

Sempre fui defensora da harmonia entre os diferentes, da boa convivência entre culturas distintas, mas, de repente, me vi odiando os americanos e seus lanches rápidos e suas coca-colas gigantes. Nos bares, à noite, futebol americano passando na tevê (socorro!). Ao meio-dia, andava quilômetros e não encontrava um restaurante “normal”. Só fast food, sanduíches. Quando encontrei um a quilo, não havia pratos, e sim caixinhas de isopor. Os talheres, de plástico. E foi assim durante todo o tempo que eu passei lá: raros restaurantes de comida a quilo, e, por sinal, caríssimos. Isopor no lugar do prato de verdade, do copo de verdade, da caneca, da xícara do café (aliás, que café bem ruim, hein?). Tudo é plástico, tudo é descartável. Haja petróleo.



Controlar o impulso etnocêntrico não é tarefa fácil. “No Brasil isso é melhor.” No início, repeti esta frase internamente trocentas vezes por dia. Até que acostumei. O ônibus já não era estranho, o mapa da cidade entrou na minha cabeça, fui perdendo a implicância. Então pude aproveitar as vantagens de estar na capital do país mais poderoso do mundo. Museus gratuitos, restaurantes étnicos, bares charmosos. Para cada dia, uma programação. E o estômago pode escolher em que país quer se imaginar: Vietnã, Malásia, Tailândia, Japão, China, Coréia, Índia, Ghana, Etiópia, Rússia, França, Itália, El Salvador, Honduras, México. Restaurantes e mais restaurantes. Coisa de primeiro mundo.









Crise? Onde?

Na metade de setembro, eu já perambulava com desenvoltura por Washington, D.C. Foi quando os mercados internacionais surtaram. Sabe que o pessoal lá não andava tão preocupado assim? Pois é, no Brasil se fala mais no assunto, acho. Os programas de tevê priorizavam as eleições. Os debates estavam em alta. Algumas pessoas me disseram que o povo andava comprando menos, deixando de ir a restaurantes, cortando alguns gastos. E só. Quanto ao 11 de Setembro, mesma coisa. Um dia absolutamente normal. O que houve de mais animado foi a inauguração de um memorial no Pentágono. Nada mais.



No, we can’t

Comer/beber no ônibus? Não pode. Comer/beber no metrô? Não pode. Beber cerveja andando na rua? Não pode. Atravessar a rua fora da faixa de segurança? Não pode. Fumar em ambiente fechado? Nem pensar. Aquele papo do Obama, “Yes, We Can”, é furado. Eles não podem nada, vamos combinar. Para entrar nos bares e beber, é preciso ter 21 anos e documento que comprove. Dirigir pode com 16 anos, né?! Vai entender. De qualquer forma, tenho que admitir: as ruas são limpas, as praças, idem. As placas de propaganda dos candidatos não estão por tudo, como no Brasil.



Lá ocorre uma eleição “clean”, pelo menos em Washington, D.C. Plaquinhas discretas em frente a algumas casas. Nos arredores de onde eu morava, predominavam as de Obama. Em Alexandria, cidade vizinha, no Estado de Virgínia, uma colega me contou que só dava McCain.



É o que vale

Pra finalizar, uma homenagem aos "anjos" que me acolheram e socorreram nos States.

Com a melhor roommate: Maria Carolina Corcione


Com Daniela, que me ofereceu o sofá da casa dela nesta noite


Com Hannah, alemã-amiga que se apaixonou por forró


Com Guelly, boliviana que me levou a um restaurante normal


Com Luciana, companheira de museus


Com Amanda, guaibense como eu


*agora, bom mesmo é voltar para casa e poder tomar uma cerveja no boteco mais próximo, a qualquer hora do dia, na companhia de quem a gente gosta, sem precisar pensar que está fazendo algo errado. o Brasil é foda

segunda-feira, dezembro 29, 2008

Exibicionismo

Alanis Morissette estará em Porto Alegre no dia 10 de fevereiro, com o show Flavors of Entanglement, ao qual eu assisti em setembro nos Estados Unidos. Na ocasião, combinei de comprar o ingresso de um cambista por telefone, porque chinelagem é algo universal, e me mandei para o Constitution Hall de ônibus, com o mapa da cidade na mão, com medo de não conseguir chegar a tempo. Era um dia quente, me lembro, uma segunda-feira, e precisei caminhar mais do que gostaria para estar no teatro, já que o transporte público em Washington, D.C. não é dos melhores. Lá, encontrei o cambista e então se foram 50 e poucos dólares do meu orçamento de viagem, gasto que hoje não me provoca o mínimo arrependimento. Havia o risco de o ingresso ser falso ou de a localização ser péssima. Quando entrei naquele teatro lindo, coisa de primeiro mundo mesmo, e vi a cadeira a qual o ingresso me dava direito, fiquei chocada. Eu não estava na primeira fila, mas era quase isso. Localização perfeita. O único porém foi que eu estava ali sozinha, em meio a uma platéia muito desanimada, porque os norte-americanos são um povo sem graça.
Mas agora eu divido um pouquinho da emoção com vocês:





*agradeço aos amigos com os quais falei brevemente naquela segunda-feira à tarde pelo MSN. Eles me disseram algo do tipo “não pensa, vai sim”. Tinham razão.
**eu sempre detestei esse papinho exibicionista do tipo “já assisti esse show no exterior”. Incoerente e bobinha que sou, tive que fazer o mesmo.

sexta-feira, dezembro 19, 2008

Sobre o constrangimento nosso do amigo-secreto de cada ano

Amigo-secreto, todos nós sabemos, é sempre uma furada. Tira-se desafetos, quem te tirou não aparece e não há informações sobre o presente ou então você ganha algo muito desnecessário e é obrigado a fazer cena para agradecer. Nos eventos familiares, devido ao grande número de participantes, corre-se o risco de tirar alguém que passou a fazer parte do clã há duas semanas ou um indivíduo que nunca fez parte, mas é convidado para passar o Natal com o grupo, por caridade.

Apesar de todos os contras, quando chega dezembro, não sei o porquê, me bate uma vontade louca de entrar em todos os amigos-secretos para os quais me convidam. É, eu sempre tive tendência masoquista. Este ano, com a graça de Deus, estou participando de dois, porque os colegas de trabalho me fizeram o favor de promover um amigo-secreto restrito (só o pessoal da diagramação), então eu fiquei de fora, feliz por ter sido vetada (e salva!).

Já providenciei as lembrancinhas para o evento entre amigas e o familiar. Este último promete grandes emoções em 25 de dezembro, já que uma das minhas primas, muito espontânea, deixou vazar, na entrega dos papeizinhos, que não gostou muito do resultado. Então metade dos participantes, que flagraram a revelação, está morrendo de curiosidade. Todos loucos para que chegue o Natal de uma vez. Eu confesso que estou com medo. Se for a felizarda, espero estar com muito clericot na cabeça a esta hora, para apenas dar risada. Porque amigo-secreto é isso mesmo, constrangimento e fingimento (exceto o realizado entre amigas).

quarta-feira, dezembro 17, 2008

Chega mais, Noel


Caro Papai Noel,

Não sei se fui uma boa menina em 2008. Mas, como eu não sou má pessoa, certamente não provoquei grandes prejuízos à humanidade. Provavelmente tenha sido um pouco egoistinha. É. Talvez tenha brigado mais do que deveria com a minha irmã, com meu chefe, com o namorado. Só que não foram briiiiiiiiiigas homéricas, foram só umas "rosnadinhas". Bem, com a minha irmã foram mais do que rosnadas, mas entre família é assim mesmo que a coisa funciona. Irmão que não briga é um tédio, o senhor sabe. E muita paz faz mal à saúde.

Velhinho, eu chorei um bocado em 2008, principalmente quando passei um mês no Hemisfério Norte tentando entender o idioma que eles falam por lá. Não foi muito produtivo comer porcaria durante 30 dias. E gastei todo o dinheiro da poupança naquelas bandas, mais um bocado do dinheiro da mamãe, tão suado. Me senti egoisitinha. O bom foi que, sofrendo e exercitando o meu lado dramático-nacionalista-xenófobo, esgotei boa parte do estoque de lágrimas, então tenho chorado bem menos, até em épocas de TPM (o namorado agradece). Voltei um pouco adultinha, digamos.

Peço que, em 2009, eu não tenha que me preocupar nem gastar tanto com vazamentos, instalação de ar-condicionado ou conserto do juncker. Foi demais neste ano, o senhor há de convir comigo. Um vazamento no banheiro acabou levando do meu orçamento R$ 500. Consegui comer naquele mês, e olha que nem vendi o corpo. Poupe-me de situações como essa no próximo ano, please. Que os desafios econômicos se restrinjam aos mercados mundiais.



Noelito, estudei menos do que deveria neste ano que se acaba, mas tenho refletido muito sobre em qual curso de pós-graduação devo investir. Prometo concretizar algo em 2009. Eu só tenho 24 anos, vê se dá um desconto.

Agora, o que eu deixei a desejar mesmo foi no quesito "minha contribuição para mudar o mundo". No máximo eu fiz uns discursos por aí, NoelVelho. Ação? Nada. Uma vergonha. Então eu acho que é bem justo tu não caprichar no meu presente, me dar algo bem maisoumenos. Até porque eu ando irritada com essa história de que as pessoas vão gastar uma média de trocentos reais com os presentes de Natal. Economize no meu presente e fuja desta estatística mentirosa, por favor.

Nós dois sabemos que a maioria da população brasileira não tem trocentos reais para queimar em shopping nesta época do ano, aos empurrões e cotoveladas. Essas Câmaras de Dirigentes Lojistas e associações insistem em inventar número que os jornalistas usam em suas matérias mesmo sabendo que tudo não passa de enganação. Vamos lutar contra essa palhaçada, Noelzuco. Juntos.

Então é isso. Você pode me dar um presente meia-boca, porque eu não fiz nada de muito importante para o Planeta em 2008, mas também não me deixa a ver navios, porque eu também não causei grandes prejuízos à humanidade. Com isso a gente boicota as estatísticas, os shoppings e as empresas de cartão de crédito. E no ano-novo estaremos tranqüilos porque não alimentamos o sistema. De repente tomarei uma cidra barata, em uma praia chinela, sem roupa nova nem calcinha amarela! Porque, Noel, em 2009, eu quero simplicidade. Pensar menos em dinheiro e mais em gente. Gastar as minhas energias com o que realmente vale a pena.

Boas Festas e a gente se vê na semana que vem!

Débora Cruz (querendo revolução para 2009).

p.s. Ah, um emprego novo seria muito bem-vindo!


*na foto 1, da esquerda para a direita: Luciana e a boneca nova, meu irmão Júnior, Tio Jorge encarando o disfarce de Papai Noel, meu dindo sentado no chão e eu, acolhida por ele, segurando uma boneca de cabelos azuis, em um dos muitos Natais passados na casa-da-Vó-e-do-Vô.

*na foto 2, Débora Cruz aos 14 anos, fazendo pose junto a ursinhos de pelúcia natalinos em Gramado, faceira na excursão do colégio.

quinta-feira, dezembro 11, 2008

Então eu esperei 24 anos por um presente


É Natal. E de uns anos pra cá esta data tem mexido comigo. Não sei ao certo o motivo. Talvez seja o fato de que a celebração envolve família. E desde que passei a morar em Porto Alegre, o convívio ficou escasso. O coração volta e meia aperta quando penso nisso.

Meu sobrinho já é quase um homem (como eu exagero), meus pais já não têm a mesma vitalidade. Quando reencontro os tios, vejo que o número de cabelos brancos tem aumentado de forma considerável. E eu acompanho tão pouco, aqui, do outro lado do rio.

Bem, mas a questão é que o Natal deixa todo mundo meio sentimental, até quem nunca é sentimental. Hoje é dia 11 e eu já recebi dois presentes referentes à data! Um deles, de uma amiga especial, que é ansiosa e não agüentaria esperar até o dia 25; outro, do meu pai.

Ao visitá-lo no fim de semana, ele me chamou até o quarto, como se tivesse algum grande segredo para contar. Então buscou uma caixinha retangular, estampada com flores verdes e amarelas. Lá fui eu, curiosa. “Isso aqui é pra tu poder tomar chimarrão com uma bomba certa para o tamanho da cuia, pra não precisar ficar usando aquela tua, que é muito grande.”

Ganhei uma bomba de chimarrão linda, feita em ouro e prata, detalhe para o qual eu não ligo muito, mas que o meu pai acha vital. Achei curiosa a escolha dele: presentear-me justamente com algo que nem eu sabia que estava precisando.

Destaco: desde que me entendo por gente, não lembro de meu pai ter me dado algum presente. Sério. Só que eu nunca considerei isso um problema, porque sei que ele é desligado, que não se importa muito com Natal nem com presentes caros em datas criadas para nos levar à falência.

No entanto, admito: a bomba de chimarrão “feita sob medida” me tocou. E eu esperaria mais 24 anos pra ganhar algo tão bem escolhido, tão significativo e ao mesmo tempo tão simples. Natal emociona (tá, pode rir, vai).

quinta-feira, dezembro 04, 2008

Aqui, farroupilha!


No mês de setembro, andava eu pelas ruas e ônibus de Washington, D.C. (eu faço questão de escrever sempre D.C. porque não se trata do Estado de Washington, e sim da capital norte-americana, e eu acho que isso é uma informação importantíssima, embora quase ninguém concorde) a observar o povo e fazer comparações. Bem coisa de quem viajou duas vezes na vida. E um detalhe que eu notei de cara foi que lá as pessoas estão sempre com pressa, muito ocupadas, muito "busy", não têm tempo pra nada. Então é comum vê-las "carregando" o café-da-manhã no ônibus ou mesmo quando caminham pela rua.

Levam um copo de café (meio térmico, meio de isopor, sei lá), com tampa, na mão. Geralmente acabaram de comprar o produto em uma das muitas Starbucks (rede de cafés que é uma praga nos EUA, tem uma franquia a cada esquina) da cidade. Tamanho à la Super Size Me, tipo meio litro. Como eu gosto é de café preto na xícara, não me adaptei àquela água-suja-em-copo-de-plástico-tamanho-família. Mas o bom é que eu olhava para as pobres criaturas e pensava: daqui a pouco eu estarei no Brasil, então não vou precisar ver mais esta gente pálida tomando café fraco em copo gigante. Lembrava dos cafezinhos de padaria, dos de restaurante. O Brasil é lindo. Que saudade.

E aí, de volta a Porto Alegre, eu pego o Rio Branco/Anita (o que tenho feito duas vezes na semana, por sinal) e o que eu vejo? Uma passageira com um daqueles copos de café de plástico com tampinha. Não acreditei. E era do McDonald's o café, pra piorar. Olha, tudo tem limite, principalmente quando o assunto é café, produto brasileiro por excelência. Esta moda de levá-lo no ônibus em copo de plástico não pode pegar. É uma afronta. Eu pensei em falar para a moça do ônibus: "Tu sabe o que significa este copo aí? Tu sabe quantas porcarias os norte-americanos já nos empurraram e a gente saiu comprando? Já não bastam os filmes hollywoodianos? Os lixos da indústria fonográfica? Os reality shows e seriadinhos bestas? Os cremes da Victoria's Secret?".

Acabei ficando na minha, embora não engula essa história e continue com a certeza de que, às vezes, é saudável ser radical. Pra preservar o que é nosso. Pra não vender a alma. Pra dar às coisas, às pessoas (e ao país!) o valor que elas merecem. Café-da-manhã no McDonald's? Aqui, farroupilha!

quinta-feira, novembro 20, 2008

Será que eu sonhei?

O que a pessoa deve pensar quando está trabalhando, às 20h54min de uma quinta-feira, escrevendo uma nota sobre investimentos no combate à dengue no Brasil e no RS, e um desconhecido insiste em ligar, para o telefone comercial, ou seja, da redação, sendo que o único ruído possível de se escutar do outro lado da linha é uma espécie de karaokê: "Uma deusa, uma louca, uma feiticeira, meu Deus ela é demais"?

**seria uma nova estratégia das assessorias de imprensa para tentar emplacar uma pauta?

**leitor descornado?

**minha irmã fazendo pegadinha?

Não sei. Juro.

Vida é mel, dependendo da década


Não são poucos os momentos em que busco na memória o gosto do algodão-doce, tomada por saudade. O mesmo acontece com maçã-do-amor. Só que essas guloseimas-símbolo da infância e dos parquinhos geralmente não cumprem o que prometem quando se tenta ingeri-las na fase adulta. O estômago não suporta tanto açúcar misturado a anilina. As mãos não encontram jeito de permanecer limpas e tudo parece bem mais nojento do que inocente. Tem coisas que a gente não deveria fazer depois que cresce justamente para preservar o encantamento das lembranças.

quarta-feira, novembro 19, 2008

O cinza-chumbo interior


Tem dias em que a gente só deseja poder ficar jogado no sofá, travesseiro fofinho e edredon, trocar o canal da TV 329 vezes, dormir e acordar e dormir de novo. Trocar de canal mais uma vez. E pensar que o mundo gira sem a nossa presença ou participação. Que bom, já que o desejo maior é ficar ali, escondidinho, abafado, sozinho, quieto. Alienado.

Tem dias em que a gente só deseja poder desligar o cérebro por algumas horas, suspender preocupações com o futuro, que é incerto, todos sabem, mas quase ninguém encara isso de alma leve. A minha pesa, principalmente nos dias sem sol, com muita nuvem e breves chuviscos, pingos sem vontade. Nestes dias, parece que nem a chuva vinga. E é então que a gente só deseja se jogar no sofá, desligar o cérebro, dormir e acordar e dormir de novo. Pra de repente sonhar.

terça-feira, novembro 11, 2008

Gentilezas


Se antes achava quase uma grosseria quando você abria a porta do carro, agora enxergo nisso gentileza. E estou precisando de gentilezas. E de palavras doces ao pé-do-ouvido. E de promessas que dificilmente serão cumpridas. Declarações clichês feitas perante o pôr-do-sol, no fim da festa, nós dois caminhando na chuva, sentados no meio-fio como se o mundo não girasse, a tua mão na minha cintura. Mãos dadas, entrelaçadas, grudadas, suadas. Cafuné, qualquer bobagem e a gente ali. Um cachorro-quente e o meu copo vazio. Vem a noite, que é curta, a gente sabe. E bombons no dia seguinte, ou pão de queijo, iogurte, aquela torrada. Bilhetinhos com dizeres bregas, poemas batidos, planos de viagens. Leste Europeu, Cuba, Curitiba ou Pinhal. Juras bobas. Nós dois. Um só. E gentilezas.

sexta-feira, novembro 07, 2008

Vou defender a Luana Piovani



Sim, porque toda mulher passa pela fase eu-tava-sozinha-e-ficar-com-ele-até-que-não-era-tão-mal-então-resolvi-fingir-que-tinhamos-tudo-a-ver-e-podíamos-ser-felizes-só-que-no-final-ele-se-mostrou-mais-ogro-do-que-eu-podia-imaginar. Não condeno. Até porque ela, embora linda de morrer, tem mais de 30 anos, o instinto materno está batendo à porta, é azarada nos relacionamentos e quer ser feliz. Tentou, ao menos. E o Dado, mesmo sendo ogro na décima potência, convenhamos, é gato.
Só não precisava ter escrito algo como “mais uma vez, Deus me protegeu, ia casar com alguém que não conhecia” no que chama de “seu blog”. Menos, né, Lú.

quarta-feira, novembro 05, 2008

O Brasil nunca foi ao Brazil

Eu, em um ônibus pinga-pinga no trajeto Florianópolis-Porto Alegre, tentanto explicar a um londrino mochileiro que a vida na terra do samba não é festa o tempo todo:

- Vocês, brasileiros, não têm o hábito de fazer mochilão, né?
- Bem... é que, pra gente, isso é um tanto quanto caro.
- Pra gente também. Eu juntei dinheiro durante 11 meses pra fazer esta viagem!
- Só que, no Brasil, se você consegue juntar alguns trocados durante 11 meses (considerando um salário de jornalista com contas mensais a pagar), vai no máximo até Buenos Aires. É um pouco diferente, sabe...
- É mesmo?
- Sim.
- Mas o Brasil não é terceiro mundo. Ou é?
- [desisti]

quinta-feira, outubro 23, 2008

Porto Alegre é demais

Pego o Orfanatrófio, sentido Centro-bairro, às 17h40min de uma quinta-feira cinzenta. Todos os assentos estão ocupados. Alguns passageiros, em pé, se equilibram.
O cobrador lê Goethe.
(que momento, hein?)

quinta-feira, outubro 16, 2008

É você e ponto: sobre a delícia e a dor de viajar sozinha


Tiro uma foto em frente à Casa Branca e penso que o meu pai não está ali. Pena. Ele adoraria observar o esquema de segurança, comentaria a arma do policial, o modelo da viatura.

Passeio pelo Museu da Imprensa, entre pedaços do Muro de Berlim, destroços do World Trade Center, homenagens a repórteres que perderam a vida em nome da notícia, fotos que ganharam o Prêmio Pulitzer. Lembro dos amigos jornalistas, os que se formaram comigo, os que conheci no dia-a-dia da profissão, os que ainda aturam aulas na faculdade. Lembro do Guilherme, ele poderia passar um dia inteiro percorrendo os seis andares do Newseum.

Pego um ônibus pra Nova York. "Brincar" nas lojas, experimentar perfumes e maquiagens, andar-andar-andar e não comprar nada. Minha irmã ia adorar tudo isso. E ela está tão longe.

Decido torrar 20 dólares para subir até o mirante do Empire State Building. É quase 1h da manhã. Eu, meu casaco que não dá conta do frio, mais a câmera fotográfica. Teria muito mais graça ver as luzes da cidade de Nova York abraçada ao namorado. E ele está na outra ponta do continente.

Chego no Central Park e dou de cara com uma Oktoberfest. Canecos, bandinha alemã, cerveja em jarra. Confraternizo com desconhecidos, faço amigos, bebo de graça. Mas onde estará a Tatiana Lemos a uma hora dessas? Cadê a minha amiga que sabe tudo de Alemanha?

Volto para Washington, D.C. Vou até a George Washington University, Georgetown University, sedes do FMI, do Banco Mundial. Mamãe ficaria impressionada com os campi, falaria mal do World Bank e do International Monetary Fund. Ela nunca esteve nos EUA.

Show da Alanis Morrissette, show de jazz, show de reggae. Meu primo Matheus, ex-projeto de músico e atual projeto de jornalista especializado em cultura, ficaria louco.

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A dor de viajar sozinha é que dá vontade de compartilhar as experiências com pessoas queridas e elas estão bem longe. A gente constrói uma rede de afetos desde que nasceu e, no momento em que vive histórias maravilhosas, as pessoas que de fato importam não estão por perto. Não tendo para quem se gabar de imediato, o ego, desprestigiado, sem platéia, murcha. Viajar by yourself é como protagonizar um filme ótimo, de um diretor reconhecidíssimo, ao qual ninguém assistirá. No coletiva de imprensa, no pré-estréia, no DVD na locadora. É você e ponto.

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Mas chega de drama, porque a “delícia” da experiência compensa. Além de atuar, você é o diretor do “filme”. Decide onde ir primeiro, se tira fotos ou não, se muda de idéia e troca o destino. Fica mais tempo neste museu, menos no outro. Come o terceiro hambúrguer do dia sem ninguém te lembrar a existência daquela palavra inútil e burguesa: caloria. E toma uma long neck por dia sem que te chamem de alcoólatra.

Por uma questão de sobrevivência, desenvolve o “lado GPS” do cérebro, coisa que não aconteceria se estivesse acompanhada de alguém mais esperto. O momento mais lindo da viagem, no meu caso, foi quando entendi o mapa da cidade e parei de me perder. Um dia até dei informação a uma americana: “Sim, a 18th Street é para aquele lado”. Me achei. Quando compreendi o funcionamento do metrô, outra emocão. Viajando solito, você descobre o seu ritmo, passa a lidar melhor com as limitações, fica mais ágil para todo o resto.

Outra vantagem: aprende-se a fazer amigos com uma rapidez nunca antes vista. Em quatro semanas na capital norte-americana, conversei com desconhecidos na rua, nos bares, nos museus, nas lojas. Como embaixadora do “brazilian way of life”, dei aulas de samba, ensinei os colegas japas a dizer “Oi” e “Casa Branca”, reforcei o mito do Carnaval: “Sim, é isso mesmo, quatro dias de feriado nacional, todo mundo dançado, todo mundo bebendo”. Eles não sabem nada sobre a gente mesmo... que ao menos fiquem com a imagem de que somos alegres.

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Em resumo, o lance de viajar sozinho sintetiza a idéia do “não se pode ter tudo na vida”. Aí dá pra entender por que a felicidade só é completa na ficção. A vida real apresenta ao viajante dor de garganta em meio a passeios, vontade de chorar na hora em que se coloca a cabeça no travesseiro, a mais profunda solidão em meio a cenários dos mais excitantes. Quem aprende a se divertir sozinho mata a charada e vê que o prazer e a dor podem conviver bem. É assim o tempo inteiro na vida, não é mesmo? Bom, ruim, humano, incompleto. E quando o bicho pega, é você e ponto.

quarta-feira, outubro 01, 2008

Eu preciso voltar porque...



*Meu bolso não agüenta mais pagar 5 dólares por uma long neck;
*Cansei de comer com os mendigos no McDonald’s;
*É vital para a minha sobrevivência voltar a comer com garfo e faca de verdade, em prato de verdade (todo dia é essa história de talher de plástico e comida em caixinha de isopor, mesmo nos lugares caros).

Eu preciso voltar porque...
*Esgotei minha capacidade de fazer cinco amigos por dia, todos de países diferentes;
*Ando louca pra atravessar a rua sem burocracia (as pessoas esperam o sinal abrir para o pedestre, sempre! sempre mesmo! mesmo quando não passa carro! que angustia!);
*Pra mim chega de algumas “regras” do tipo: é proibido comer/beber no metrô, é proibido comer/beber no ônibus, é proibido tomar cerveja andando na rua, é proibido, é proibido, é proibido.

Eu preciso voltar porque...
*A grana acabou;
*Cansei de acordar cedo e chegar na aula pontualmente;
*Esqueci completamente que tenho um emprego no Brasil e que ganho em reai$.

Eu preciso voltar porque...
*Não acho bacana ser sempre a que mais bebe e a única que toma cerveja;
*Estou esquecendo o significado das palavras: salto, esmalte, escova, maquiagem, brincos-grandes, roupas-coloridas, colar (a mulherada não pinta a unha, usa chinelo pra ir trabalhar e não põe nem um batonzinho);
*O meu cérebro anda cansado de acordar em inglês, pegar o ônibus em espanhol, depois estudar inglês ao lado de japas, então visitar museus nos quais tudo está escrito em inglês, e chegar em casa, tentar assistir TV, entender apenas 50% e ter raiva das suas limitações.

Eu preciso voltar porque...
*Não gosto de conviver diariamente com o meu lado xenófobo de ser;
*Ando emburrecendo;
*Cansei de explicar que Porto Alegre fica Sul do Brasil e que lá se come carne todo dia e que temos todas as estações e que...
*Ando necessitada de abraços de verdade, música boa, gente que fala alto.

Eu preciso voltar porque, se ficar mais, acabarei igual aos americanos, sem saber o que se passa no mundo, pensando apenas no próprio umbigo, achando normal comer em caixinhas de isopor/plástico diariamente (haja petróleo), respeitando todas as regras. Se eu ficar mais, vou me acostumar com a limpeza das ruas, dos parques, do metrô. Vou me acostumar com a diversidade de restaurantes, de bares, de museus interessantíssimos, de jornais gratuitos, de gente. Vou me acostumar a não precisar pensar em assalto, em acidente de trânsito, em criança sem escola. Vou me acostumar a não lembrar que o mundo é muito mais do que este país. Eu preciso voltar. Ainda bem que eu posso.

quinta-feira, setembro 18, 2008

Vai um abraço aí?


Ainda bem que existem pessoas interessadas em promover momentos de afeto entre desconhecidos. Os viajantes carentes de abraços agradecem.

p.s. Que tristeza se no Brasil nós precisássemos de campanha pra sair abraçando os outros por aí. (a gente é feliz e não sabe)

A vizinha do Bush


A espanhola Concepcion Picciotto faz vigília em frente à Casa Branca, em Washington DC, desde 1981. Ela vive em uma tenda de náilon montada no Lafayette Park, a poucos passos da Pennsylvania Ave, 1600. Ali exibe cartazes a favor da paz mundial e contra armas nucleares. Dá informações a turistas sobre a sua luta, conversa calmamente, entrega panfletos a quem se mostra interessado. Desanimador é constatar que a maioria dos turistas só tem olhos para a imponente White House.

domingo, setembro 14, 2008

Português!


Cheguei à conclusão de que o Brasil não existe. Eu tenho colegas do Japão, Coréia do Sul, Taiwan, Libéria e Colômbia. Tem também um paulista que fala comigo em português quando a gente está prestes a surtar. O professor é coreano, pode?! Em poucos dias de aula tive que ouvir duas vezes: Ah, vocês falam espanhol... Não! We speak portuguese! Ninguém perguntou sobre samba, Carnaval, futebol ou Gisele Bündchen. Nada! Hoje decidi sair com a camiseta do Grêmio pra ver se achava alguns brasileiros. Resultado: percebi que o Grêmio também não existe. Encontrei apenas um brasileiro. E olha que fui a um evento grande, com pessoas de várias partes do mundo, o Adams Morgan Festival. É foda.