quinta-feira, dezembro 04, 2008

Aqui, farroupilha!


No mês de setembro, andava eu pelas ruas e ônibus de Washington, D.C. (eu faço questão de escrever sempre D.C. porque não se trata do Estado de Washington, e sim da capital norte-americana, e eu acho que isso é uma informação importantíssima, embora quase ninguém concorde) a observar o povo e fazer comparações. Bem coisa de quem viajou duas vezes na vida. E um detalhe que eu notei de cara foi que lá as pessoas estão sempre com pressa, muito ocupadas, muito "busy", não têm tempo pra nada. Então é comum vê-las "carregando" o café-da-manhã no ônibus ou mesmo quando caminham pela rua.

Levam um copo de café (meio térmico, meio de isopor, sei lá), com tampa, na mão. Geralmente acabaram de comprar o produto em uma das muitas Starbucks (rede de cafés que é uma praga nos EUA, tem uma franquia a cada esquina) da cidade. Tamanho à la Super Size Me, tipo meio litro. Como eu gosto é de café preto na xícara, não me adaptei àquela água-suja-em-copo-de-plástico-tamanho-família. Mas o bom é que eu olhava para as pobres criaturas e pensava: daqui a pouco eu estarei no Brasil, então não vou precisar ver mais esta gente pálida tomando café fraco em copo gigante. Lembrava dos cafezinhos de padaria, dos de restaurante. O Brasil é lindo. Que saudade.

E aí, de volta a Porto Alegre, eu pego o Rio Branco/Anita (o que tenho feito duas vezes na semana, por sinal) e o que eu vejo? Uma passageira com um daqueles copos de café de plástico com tampinha. Não acreditei. E era do McDonald's o café, pra piorar. Olha, tudo tem limite, principalmente quando o assunto é café, produto brasileiro por excelência. Esta moda de levá-lo no ônibus em copo de plástico não pode pegar. É uma afronta. Eu pensei em falar para a moça do ônibus: "Tu sabe o que significa este copo aí? Tu sabe quantas porcarias os norte-americanos já nos empurraram e a gente saiu comprando? Já não bastam os filmes hollywoodianos? Os lixos da indústria fonográfica? Os reality shows e seriadinhos bestas? Os cremes da Victoria's Secret?".

Acabei ficando na minha, embora não engula essa história e continue com a certeza de que, às vezes, é saudável ser radical. Pra preservar o que é nosso. Pra não vender a alma. Pra dar às coisas, às pessoas (e ao país!) o valor que elas merecem. Café-da-manhã no McDonald's? Aqui, farroupilha!

quinta-feira, novembro 20, 2008

Será que eu sonhei?

O que a pessoa deve pensar quando está trabalhando, às 20h54min de uma quinta-feira, escrevendo uma nota sobre investimentos no combate à dengue no Brasil e no RS, e um desconhecido insiste em ligar, para o telefone comercial, ou seja, da redação, sendo que o único ruído possível de se escutar do outro lado da linha é uma espécie de karaokê: "Uma deusa, uma louca, uma feiticeira, meu Deus ela é demais"?

**seria uma nova estratégia das assessorias de imprensa para tentar emplacar uma pauta?

**leitor descornado?

**minha irmã fazendo pegadinha?

Não sei. Juro.

Vida é mel, dependendo da década


Não são poucos os momentos em que busco na memória o gosto do algodão-doce, tomada por saudade. O mesmo acontece com maçã-do-amor. Só que essas guloseimas-símbolo da infância e dos parquinhos geralmente não cumprem o que prometem quando se tenta ingeri-las na fase adulta. O estômago não suporta tanto açúcar misturado a anilina. As mãos não encontram jeito de permanecer limpas e tudo parece bem mais nojento do que inocente. Tem coisas que a gente não deveria fazer depois que cresce justamente para preservar o encantamento das lembranças.

quarta-feira, novembro 19, 2008

O cinza-chumbo interior


Tem dias em que a gente só deseja poder ficar jogado no sofá, travesseiro fofinho e edredon, trocar o canal da TV 329 vezes, dormir e acordar e dormir de novo. Trocar de canal mais uma vez. E pensar que o mundo gira sem a nossa presença ou participação. Que bom, já que o desejo maior é ficar ali, escondidinho, abafado, sozinho, quieto. Alienado.

Tem dias em que a gente só deseja poder desligar o cérebro por algumas horas, suspender preocupações com o futuro, que é incerto, todos sabem, mas quase ninguém encara isso de alma leve. A minha pesa, principalmente nos dias sem sol, com muita nuvem e breves chuviscos, pingos sem vontade. Nestes dias, parece que nem a chuva vinga. E é então que a gente só deseja se jogar no sofá, desligar o cérebro, dormir e acordar e dormir de novo. Pra de repente sonhar.

terça-feira, novembro 11, 2008

Gentilezas


Se antes achava quase uma grosseria quando você abria a porta do carro, agora enxergo nisso gentileza. E estou precisando de gentilezas. E de palavras doces ao pé-do-ouvido. E de promessas que dificilmente serão cumpridas. Declarações clichês feitas perante o pôr-do-sol, no fim da festa, nós dois caminhando na chuva, sentados no meio-fio como se o mundo não girasse, a tua mão na minha cintura. Mãos dadas, entrelaçadas, grudadas, suadas. Cafuné, qualquer bobagem e a gente ali. Um cachorro-quente e o meu copo vazio. Vem a noite, que é curta, a gente sabe. E bombons no dia seguinte, ou pão de queijo, iogurte, aquela torrada. Bilhetinhos com dizeres bregas, poemas batidos, planos de viagens. Leste Europeu, Cuba, Curitiba ou Pinhal. Juras bobas. Nós dois. Um só. E gentilezas.

sexta-feira, novembro 07, 2008

Vou defender a Luana Piovani



Sim, porque toda mulher passa pela fase eu-tava-sozinha-e-ficar-com-ele-até-que-não-era-tão-mal-então-resolvi-fingir-que-tinhamos-tudo-a-ver-e-podíamos-ser-felizes-só-que-no-final-ele-se-mostrou-mais-ogro-do-que-eu-podia-imaginar. Não condeno. Até porque ela, embora linda de morrer, tem mais de 30 anos, o instinto materno está batendo à porta, é azarada nos relacionamentos e quer ser feliz. Tentou, ao menos. E o Dado, mesmo sendo ogro na décima potência, convenhamos, é gato.
Só não precisava ter escrito algo como “mais uma vez, Deus me protegeu, ia casar com alguém que não conhecia” no que chama de “seu blog”. Menos, né, Lú.

quarta-feira, novembro 05, 2008

O Brasil nunca foi ao Brazil

Eu, em um ônibus pinga-pinga no trajeto Florianópolis-Porto Alegre, tentanto explicar a um londrino mochileiro que a vida na terra do samba não é festa o tempo todo:

- Vocês, brasileiros, não têm o hábito de fazer mochilão, né?
- Bem... é que, pra gente, isso é um tanto quanto caro.
- Pra gente também. Eu juntei dinheiro durante 11 meses pra fazer esta viagem!
- Só que, no Brasil, se você consegue juntar alguns trocados durante 11 meses (considerando um salário de jornalista com contas mensais a pagar), vai no máximo até Buenos Aires. É um pouco diferente, sabe...
- É mesmo?
- Sim.
- Mas o Brasil não é terceiro mundo. Ou é?
- [desisti]

quinta-feira, outubro 23, 2008

Porto Alegre é demais

Pego o Orfanatrófio, sentido Centro-bairro, às 17h40min de uma quinta-feira cinzenta. Todos os assentos estão ocupados. Alguns passageiros, em pé, se equilibram.
O cobrador lê Goethe.
(que momento, hein?)

quinta-feira, outubro 16, 2008

É você e ponto: sobre a delícia e a dor de viajar sozinha


Tiro uma foto em frente à Casa Branca e penso que o meu pai não está ali. Pena. Ele adoraria observar o esquema de segurança, comentaria a arma do policial, o modelo da viatura.

Passeio pelo Museu da Imprensa, entre pedaços do Muro de Berlim, destroços do World Trade Center, homenagens a repórteres que perderam a vida em nome da notícia, fotos que ganharam o Prêmio Pulitzer. Lembro dos amigos jornalistas, os que se formaram comigo, os que conheci no dia-a-dia da profissão, os que ainda aturam aulas na faculdade. Lembro do Guilherme, ele poderia passar um dia inteiro percorrendo os seis andares do Newseum.

Pego um ônibus pra Nova York. "Brincar" nas lojas, experimentar perfumes e maquiagens, andar-andar-andar e não comprar nada. Minha irmã ia adorar tudo isso. E ela está tão longe.

Decido torrar 20 dólares para subir até o mirante do Empire State Building. É quase 1h da manhã. Eu, meu casaco que não dá conta do frio, mais a câmera fotográfica. Teria muito mais graça ver as luzes da cidade de Nova York abraçada ao namorado. E ele está na outra ponta do continente.

Chego no Central Park e dou de cara com uma Oktoberfest. Canecos, bandinha alemã, cerveja em jarra. Confraternizo com desconhecidos, faço amigos, bebo de graça. Mas onde estará a Tatiana Lemos a uma hora dessas? Cadê a minha amiga que sabe tudo de Alemanha?

Volto para Washington, D.C. Vou até a George Washington University, Georgetown University, sedes do FMI, do Banco Mundial. Mamãe ficaria impressionada com os campi, falaria mal do World Bank e do International Monetary Fund. Ela nunca esteve nos EUA.

Show da Alanis Morrissette, show de jazz, show de reggae. Meu primo Matheus, ex-projeto de músico e atual projeto de jornalista especializado em cultura, ficaria louco.

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A dor de viajar sozinha é que dá vontade de compartilhar as experiências com pessoas queridas e elas estão bem longe. A gente constrói uma rede de afetos desde que nasceu e, no momento em que vive histórias maravilhosas, as pessoas que de fato importam não estão por perto. Não tendo para quem se gabar de imediato, o ego, desprestigiado, sem platéia, murcha. Viajar by yourself é como protagonizar um filme ótimo, de um diretor reconhecidíssimo, ao qual ninguém assistirá. No coletiva de imprensa, no pré-estréia, no DVD na locadora. É você e ponto.

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Mas chega de drama, porque a “delícia” da experiência compensa. Além de atuar, você é o diretor do “filme”. Decide onde ir primeiro, se tira fotos ou não, se muda de idéia e troca o destino. Fica mais tempo neste museu, menos no outro. Come o terceiro hambúrguer do dia sem ninguém te lembrar a existência daquela palavra inútil e burguesa: caloria. E toma uma long neck por dia sem que te chamem de alcoólatra.

Por uma questão de sobrevivência, desenvolve o “lado GPS” do cérebro, coisa que não aconteceria se estivesse acompanhada de alguém mais esperto. O momento mais lindo da viagem, no meu caso, foi quando entendi o mapa da cidade e parei de me perder. Um dia até dei informação a uma americana: “Sim, a 18th Street é para aquele lado”. Me achei. Quando compreendi o funcionamento do metrô, outra emocão. Viajando solito, você descobre o seu ritmo, passa a lidar melhor com as limitações, fica mais ágil para todo o resto.

Outra vantagem: aprende-se a fazer amigos com uma rapidez nunca antes vista. Em quatro semanas na capital norte-americana, conversei com desconhecidos na rua, nos bares, nos museus, nas lojas. Como embaixadora do “brazilian way of life”, dei aulas de samba, ensinei os colegas japas a dizer “Oi” e “Casa Branca”, reforcei o mito do Carnaval: “Sim, é isso mesmo, quatro dias de feriado nacional, todo mundo dançado, todo mundo bebendo”. Eles não sabem nada sobre a gente mesmo... que ao menos fiquem com a imagem de que somos alegres.

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Em resumo, o lance de viajar sozinho sintetiza a idéia do “não se pode ter tudo na vida”. Aí dá pra entender por que a felicidade só é completa na ficção. A vida real apresenta ao viajante dor de garganta em meio a passeios, vontade de chorar na hora em que se coloca a cabeça no travesseiro, a mais profunda solidão em meio a cenários dos mais excitantes. Quem aprende a se divertir sozinho mata a charada e vê que o prazer e a dor podem conviver bem. É assim o tempo inteiro na vida, não é mesmo? Bom, ruim, humano, incompleto. E quando o bicho pega, é você e ponto.

quarta-feira, outubro 01, 2008

Eu preciso voltar porque...



*Meu bolso não agüenta mais pagar 5 dólares por uma long neck;
*Cansei de comer com os mendigos no McDonald’s;
*É vital para a minha sobrevivência voltar a comer com garfo e faca de verdade, em prato de verdade (todo dia é essa história de talher de plástico e comida em caixinha de isopor, mesmo nos lugares caros).

Eu preciso voltar porque...
*Esgotei minha capacidade de fazer cinco amigos por dia, todos de países diferentes;
*Ando louca pra atravessar a rua sem burocracia (as pessoas esperam o sinal abrir para o pedestre, sempre! sempre mesmo! mesmo quando não passa carro! que angustia!);
*Pra mim chega de algumas “regras” do tipo: é proibido comer/beber no metrô, é proibido comer/beber no ônibus, é proibido tomar cerveja andando na rua, é proibido, é proibido, é proibido.

Eu preciso voltar porque...
*A grana acabou;
*Cansei de acordar cedo e chegar na aula pontualmente;
*Esqueci completamente que tenho um emprego no Brasil e que ganho em reai$.

Eu preciso voltar porque...
*Não acho bacana ser sempre a que mais bebe e a única que toma cerveja;
*Estou esquecendo o significado das palavras: salto, esmalte, escova, maquiagem, brincos-grandes, roupas-coloridas, colar (a mulherada não pinta a unha, usa chinelo pra ir trabalhar e não põe nem um batonzinho);
*O meu cérebro anda cansado de acordar em inglês, pegar o ônibus em espanhol, depois estudar inglês ao lado de japas, então visitar museus nos quais tudo está escrito em inglês, e chegar em casa, tentar assistir TV, entender apenas 50% e ter raiva das suas limitações.

Eu preciso voltar porque...
*Não gosto de conviver diariamente com o meu lado xenófobo de ser;
*Ando emburrecendo;
*Cansei de explicar que Porto Alegre fica Sul do Brasil e que lá se come carne todo dia e que temos todas as estações e que...
*Ando necessitada de abraços de verdade, música boa, gente que fala alto.

Eu preciso voltar porque, se ficar mais, acabarei igual aos americanos, sem saber o que se passa no mundo, pensando apenas no próprio umbigo, achando normal comer em caixinhas de isopor/plástico diariamente (haja petróleo), respeitando todas as regras. Se eu ficar mais, vou me acostumar com a limpeza das ruas, dos parques, do metrô. Vou me acostumar com a diversidade de restaurantes, de bares, de museus interessantíssimos, de jornais gratuitos, de gente. Vou me acostumar a não precisar pensar em assalto, em acidente de trânsito, em criança sem escola. Vou me acostumar a não lembrar que o mundo é muito mais do que este país. Eu preciso voltar. Ainda bem que eu posso.

quinta-feira, setembro 18, 2008

Vai um abraço aí?


Ainda bem que existem pessoas interessadas em promover momentos de afeto entre desconhecidos. Os viajantes carentes de abraços agradecem.

p.s. Que tristeza se no Brasil nós precisássemos de campanha pra sair abraçando os outros por aí. (a gente é feliz e não sabe)

A vizinha do Bush


A espanhola Concepcion Picciotto faz vigília em frente à Casa Branca, em Washington DC, desde 1981. Ela vive em uma tenda de náilon montada no Lafayette Park, a poucos passos da Pennsylvania Ave, 1600. Ali exibe cartazes a favor da paz mundial e contra armas nucleares. Dá informações a turistas sobre a sua luta, conversa calmamente, entrega panfletos a quem se mostra interessado. Desanimador é constatar que a maioria dos turistas só tem olhos para a imponente White House.

domingo, setembro 14, 2008

Português!


Cheguei à conclusão de que o Brasil não existe. Eu tenho colegas do Japão, Coréia do Sul, Taiwan, Libéria e Colômbia. Tem também um paulista que fala comigo em português quando a gente está prestes a surtar. O professor é coreano, pode?! Em poucos dias de aula tive que ouvir duas vezes: Ah, vocês falam espanhol... Não! We speak portuguese! Ninguém perguntou sobre samba, Carnaval, futebol ou Gisele Bündchen. Nada! Hoje decidi sair com a camiseta do Grêmio pra ver se achava alguns brasileiros. Resultado: percebi que o Grêmio também não existe. Encontrei apenas um brasileiro. E olha que fui a um evento grande, com pessoas de várias partes do mundo, o Adams Morgan Festival. É foda.

Alma latina


Sinceramente? Acho que odeio os americanos e seus lanches rápidos e suas coca-colas. Desde que cheguei, só levei patada. Tá, alguns foram legais, mas os gente-fina são raros. A minha host, por exemplo, no meu terceiro dia na casa, disse que eu deveria comprar um celular, porque a United e outras pessoas estavam ligando para o telefone dela. “Eu tive que atender quatro ligações pra ti hoje”, reclamou. Simplesmente não acreditei. Além disso, ela me passou duas folhas de ofício com “normas da casa”. Só não cortei os pulsos porque tenho uma roommate, a Carolina, que tem me ajudado desde o primeiro dia. Ela é colombiana e está aqui para trabalhar de forma voluntária para a União Européia. Dia desses, sufocada com as regras, com a grosseria dos americanos, com a comida horrorosa que eles comem, e ainda com dificuldades de me adaptar, tive que desabafar, enquanto conversávamos: “Carolina, I am too brazilian, I cry a lot”. Pensei que ela ia me achar uma louca, uma criança. E então ela disse: “I know what is it, I’m too colombian and I cry everyday”. A partir do momento em que abrimos o coração, paramos de chorar. A Carolina talvez não faça idéia, mas ela me salvou. Me levou pra sair com amigos colombianos, me fez companhia em um festival de capoeira (sim, tem até isso por aqui), me ensinou a lavar roupa na máquina maluca da casa. Além disso, fala mal dos americanos o tempo todo, como eu, e ri quando eu falo português (ela acha engraçado quando eu me engano e digo Casa Branca em vez de White House). É uma fofa.

Zé Dirceu: a não-foto

Eu peguei o avião em Porto Alegre às 13h10min de sábado, com destino a Guarulhos. Lá, só fui embarcar para os EUA às 22h10min. Ao menos era um vôo direto para Washington. Cheguei no Dulles International Airport por volta das 7h de domingo. Logicamente, você consegue imaginar como estava a minha aparência a essa altura: uma monstra. Na chegada, estava nervosa porque não sabia o que teria de fazer/dizer na alfândega. E pensava nisso enquanto estava no ônibus que leva os passageiros do avião até o terminal. Eis que olho para a minha direita e quem eu vejo? Zé Dirceu! Com a cara tão ou mais amassada que a minha. Pensei: puxo assunto? Tiro uma foto? Ele pareceu ler os meus pensamentos e fez cara de pit bull. Fiquei na minha. Como a TPM tem sempre a não-entrevista do mês e eu sou imitona, resolvi colocar aqui a não-foto.
Zé Dirceu: eu nem queria mesmo.

Saga

Acho que aprendi muito inglês ligando para o 0800 da United Airlines. Eu entendia pouquíssima coisa do que eles diziam. Foi o caos. Mas vi que call centers são a mesma merda em qualquer parte do mundo. Eles não resolvem o problema, apenas enrolam. Depois de muitas ligações – mobilizei a família no Brasil para infernizar a United também –, a mala apareceu. Detalhe: a bendita foi entregue “aqui em casa” apenas no dia 11 de setembro, sendo que eu cheguei nos States no dia 7. Precisei ficar em casa, esperando que alguém da empresa de delivery aparecesse, então perdi os eventos relativos ao 11/09. Que eu saiba, por aqui houve apenas a inauguração de um memorial no Pentágono. Só. Pretendo ir até lá nos próximos dias.

Amigos


A parte boa da minha chegada foi ser recepcionada por esquilos. Eles são muitos por aqui, principalmente nas redondezas de onde estou morando. Eu olho pra eles e me mato de rir. Parecem macacos, sobem em árvores, galhos, uma loucura. Minha irmã já teria tentado domesticar um se estivesse aqui...

Passado o choque, consigo escrever

Bem, após sete dias nos Estados Unidos estou conseguindo escrever as primeiras linhas. A chegada foi traumática, principalmente porque eu vim, mas a minha mala não. E pior do que cair de pára-quedas em uma cidade completamente estranha é chegar e não ter roupa para o dia seguinte, nem desodorante/xampu/condicionador/sabonete, nem pijama para uma noite decente de sono, nem um chinelinho bagaceiro para pôr quando se está em casa à noite. Depois de três dias com a mesma roupa, me sentindo uma mendiga, sem vontade nenhuma de tirar fotos, fui às compras. A minha “host” me levou ao lugar mais barato possível, um supermercado onde se encontra de tudo, inclusive roupas, tipo o BIG. Comprei uns trapos e as coisas começaram a dar certo.

sexta-feira, setembro 05, 2008

A classe média vai ao paraíso


Após meses de apertada economia que incluiu corte de gastos até com cerveja, chegou a hora. Amanhã embarco para Washington DC, a capital dos Estados Unidos, para estudar inglês e passear tudo que não passeei em 24 anos. Fico com pena de zerar o cofrinho, entretanto, sei que não será um mês “só” de viagem, mas também do mais profundo encontro comigo mesma que já vivi.

Nos meses que antecederam a minha partida, recuperei livros de inglês que usava em cursinhos de idiomas, cadernos. Estavam lá as minhas anotações, rabiscos, temas feitos a lápis. Me deu saudade e raiva de tudo. As muitas aulas de inglês que eu levei a sério não tiveram como desfecho uma temporada no exterior para cursar high school, como eu tanto sonhava. A realidade da classe média em famílias com três filhos não permite tamanho gasto. Simplesmente não sobra dinheiro pra isso – agora, assalariada que sou, eu entendo.

Bem, mas cultivar este recalque tem seu lado positivo (eu sou defensora ferrenha do rancor). A presença de tal ausência fez com que eu planejasse as minhas primeiras férias remuneradas de uma forma, no mínimo, inteligente (dia de auto-estima no topo). Solicitei financiamento materno, zerei a poupança do BB, passei grande parte do ano com a geladeira mais vazia do que o normal (poder passar fome por opção, ô privilégio), estudei o mapa dos EUA para descobrir qual seria a cidade ideal, peregrinei por agências de viagens, batalhei visto, retomei as aulas de inglês. Os bons ventos ajudaram e a empreitada deu certo.

Agora, durante a TPV (tensão pré-viagem), ando arrancando os cabelos só de pensar que vou me perder loucamente pela cidade e arredores, que em boa parte do tempo terei dificuldades graves para entender o que as pessoas falam, que vou sentir na pele toda a minha falta de vocabulário. Talvez chore, talvez reze. E será para exorcizar os momentos ruins e conduzir os bons à posteridade que contarei neste blog tão malcuidado as minhas trapalhadas e descobertas. As aventuras começam a partir de amanhã. Vem comigo!

sábado, agosto 23, 2008

Eu sonhei com Gilberto Gil

Ele deixava um bilhetinho que não era todo azul. E a letra era bem bonita. Dizia “BOA VIAGEM” e tinha dois telefones.

*escrevi isso em 2006 e esqueci de postar