domingo, setembro 14, 2008

Saga

Acho que aprendi muito inglês ligando para o 0800 da United Airlines. Eu entendia pouquíssima coisa do que eles diziam. Foi o caos. Mas vi que call centers são a mesma merda em qualquer parte do mundo. Eles não resolvem o problema, apenas enrolam. Depois de muitas ligações – mobilizei a família no Brasil para infernizar a United também –, a mala apareceu. Detalhe: a bendita foi entregue “aqui em casa” apenas no dia 11 de setembro, sendo que eu cheguei nos States no dia 7. Precisei ficar em casa, esperando que alguém da empresa de delivery aparecesse, então perdi os eventos relativos ao 11/09. Que eu saiba, por aqui houve apenas a inauguração de um memorial no Pentágono. Só. Pretendo ir até lá nos próximos dias.

Amigos


A parte boa da minha chegada foi ser recepcionada por esquilos. Eles são muitos por aqui, principalmente nas redondezas de onde estou morando. Eu olho pra eles e me mato de rir. Parecem macacos, sobem em árvores, galhos, uma loucura. Minha irmã já teria tentado domesticar um se estivesse aqui...

Passado o choque, consigo escrever

Bem, após sete dias nos Estados Unidos estou conseguindo escrever as primeiras linhas. A chegada foi traumática, principalmente porque eu vim, mas a minha mala não. E pior do que cair de pára-quedas em uma cidade completamente estranha é chegar e não ter roupa para o dia seguinte, nem desodorante/xampu/condicionador/sabonete, nem pijama para uma noite decente de sono, nem um chinelinho bagaceiro para pôr quando se está em casa à noite. Depois de três dias com a mesma roupa, me sentindo uma mendiga, sem vontade nenhuma de tirar fotos, fui às compras. A minha “host” me levou ao lugar mais barato possível, um supermercado onde se encontra de tudo, inclusive roupas, tipo o BIG. Comprei uns trapos e as coisas começaram a dar certo.

sexta-feira, setembro 05, 2008

A classe média vai ao paraíso


Após meses de apertada economia que incluiu corte de gastos até com cerveja, chegou a hora. Amanhã embarco para Washington DC, a capital dos Estados Unidos, para estudar inglês e passear tudo que não passeei em 24 anos. Fico com pena de zerar o cofrinho, entretanto, sei que não será um mês “só” de viagem, mas também do mais profundo encontro comigo mesma que já vivi.

Nos meses que antecederam a minha partida, recuperei livros de inglês que usava em cursinhos de idiomas, cadernos. Estavam lá as minhas anotações, rabiscos, temas feitos a lápis. Me deu saudade e raiva de tudo. As muitas aulas de inglês que eu levei a sério não tiveram como desfecho uma temporada no exterior para cursar high school, como eu tanto sonhava. A realidade da classe média em famílias com três filhos não permite tamanho gasto. Simplesmente não sobra dinheiro pra isso – agora, assalariada que sou, eu entendo.

Bem, mas cultivar este recalque tem seu lado positivo (eu sou defensora ferrenha do rancor). A presença de tal ausência fez com que eu planejasse as minhas primeiras férias remuneradas de uma forma, no mínimo, inteligente (dia de auto-estima no topo). Solicitei financiamento materno, zerei a poupança do BB, passei grande parte do ano com a geladeira mais vazia do que o normal (poder passar fome por opção, ô privilégio), estudei o mapa dos EUA para descobrir qual seria a cidade ideal, peregrinei por agências de viagens, batalhei visto, retomei as aulas de inglês. Os bons ventos ajudaram e a empreitada deu certo.

Agora, durante a TPV (tensão pré-viagem), ando arrancando os cabelos só de pensar que vou me perder loucamente pela cidade e arredores, que em boa parte do tempo terei dificuldades graves para entender o que as pessoas falam, que vou sentir na pele toda a minha falta de vocabulário. Talvez chore, talvez reze. E será para exorcizar os momentos ruins e conduzir os bons à posteridade que contarei neste blog tão malcuidado as minhas trapalhadas e descobertas. As aventuras começam a partir de amanhã. Vem comigo!

sábado, agosto 23, 2008

Eu sonhei com Gilberto Gil

Ele deixava um bilhetinho que não era todo azul. E a letra era bem bonita. Dizia “BOA VIAGEM” e tinha dois telefones.

*escrevi isso em 2006 e esqueci de postar

quinta-feira, agosto 07, 2008

Festa de família (para ler em capítulos)


Aniversário de 15 anos em uma cidade do interior: Uma prima vestida para o Oscar, outra com penteado “novela das 8”, a ex-mulher do tio dançando com tiara de diabinha para provocar a atual, metade da festa usando casaco da mesma cor e eu aprendendo a dançar o créu com a prima de 10 anos. É pouco?


Eu preciso escrever sobre o maior evento familiar ocorrido nos últimos tempos, ou melhor, o único evento de peso promovido por membros da minha família até hoje. Uma festa para 400 pessoas no clube mais fino da cidade de Guaíba. Decoração de arrasar, com a temática “borboletas”. Comida ótima, cerveja gelada e vinho para os menos chinelos. O povo todo bem vestido – o meu pai, por exemplo, colocou gravata pela segunda vez na vida. Festa animadérrima, comandada por dois caras que usavam pernas-de-pau e vestiam roupas coloridas. E a aniversariante, linda e loira, que cumpriu o ritual de dançar a valsa e trocou de vestido duas vezes durante a noite. Não é sempre que a província vive um momento desses.

Você aqui!

Ir a Guaíba, pra mim, é como entrar no túnel do tempo. No fim de semana em que o aniversário da minha prima Roberta parou a cidade, eu encontrei meio mundo em uma liquidação de calçados para onde a minha mãe me arrastou durante a manhã (tios, tias e ex-amigas do jardim de infância). À tarde, dei de cara com 60% da ala feminina da família no salão de beleza. Também estavam lá ex-desafetos, como uma moça que roubou um namoradinho que eu tinha aos 13 anos. Fingi que não conhecia. Ela também. Em cinco segundos eu vi a pré-adolescência passar pela minha cabeça em flashes. A manicure me chamou para a realidade (ainda bem).
– Tu vai querer pintar de jabuticaba mesmo? Também tem ameixa, cereja, carmim...
– Isso, jabuticaba.
Lembrei que tenho 24 anos. Ufa!

Chega aí, pode entrar...
A festa foi no estilo “pra não colocar defeito”. Acabei ficando na mesa mais engraçada e eclética: uma prima vestida para o Oscar, com um longo prata invejável; outra de vestido moderno-chique, daqueles soltinhos e com um sinto na altura do estômago (coisa que eu pretendo não usar nunca), com destaque maior para o cabelo, que mostrava um penteado muito “tendência”, parte das madeixas repuxada, parte solta, franja simétrica, meio “novela das 8”, acho. Completavam o quadro um primo que simulava truques de mágica com um guardanapo; a namorada dele, morrendo de vergonha; minha irmã, louca de faceira com o vestido alugado; mais a ex-mulher de um tio que repetia a todo momento “estou sentido energias negativas”, em referência à oponente; meu namorado, atônito com tudo e em dúvida se estava participando das filmagens de algum pastelão; e eu, que aproveitava a gratuidade da bebida.
Minha irmã ficou um pouco preocupada quando percebeu que 40% das mulheres da festa usavam casaco/estola/bolerinho do mesmo tecido e cor que ela estava vestindo (cinza com brilhinhos prateados). Houve breve burburinho. Metade das meninas decidiu que estava muito quente e pendurou o casado na cadeira. Coincidência amenizada.

Tem que ter habilidade
Quando começou o arrasta-pé e foram distribuídos assessórios, a ex-mulher do tio colocou uma tiara de diabinha. Me sobrou um nariz de palhaço piscante. Estava decretado que os limites do bom senso tinham ficado do lado de fora do salão. Inclusive pra mim. Resolvi aprender a dançar o Créu com uma prima de 10 anos que me surpreendeu muito. Achei que ela ainda brincava de boneca. Sabe tudo de funk, a esperta. Eu ando desatualizada. E vi que, de fato, tem que ter habilidade. Essa coisa de descer até o chão, inclusive, não fica bem em todas as idades. Se as primas menores soubessem que eu sou do tempo da “boquinha da garrafa”... O bom é que o meu passado negro, documentado em agendas e fotos, está bem guardado em caixinhas encapadas escondidas no apartamento da capital.

quarta-feira, agosto 06, 2008

Um dia e meio em São Paulo


A minha missão era conseguir o visto para os Estados Unidos, já que pretendo dar um alô para o Bush em breve. Um dia e meio em São Paulo, ida e volta com passagens promocionais da Gol, entrevista às 8h no Consulado. A minha vida em documentos, tudo separadinho com clipes, estava organizada em uma pastinha, a fim de provar que não tenho ligação com grupos terroristas. Antes das 7h Débora Cruz garantiu seu lugar na fila, ao lado de famílias que planejam ir à Disney e executivos que viajarão a trabalho. A tal entrevista, que ocorreu cerca de duas horas depois, após chá de banco, deve ter durado um minuto. Talvez nem isso. Um homem com o sotaque do Henry Sobel, o rabino das gravatas, me fez perguntas através de um vidro. Tive de responder por meio de um telefone! Coisas básicas, do tipo cidade em que pretende ficar, lugar em que trabalha e se tem parentes nos EUA. Às 9h30min eu saí de lá dando pulinhos, após ter ouvido “Visto concedido” e com tempo de sobra para passear por Sampa. Resolvi coordenar os neurônios e pegar ônibus+metrô. Deu certo e cheguei ao Masp, me achando muito sabida – eu tenho dificuldades com “direita” e “esquerda”, com o metrô de São Paulo então... imagine você. O momento cômico da viagem sempre chega. Pelo menos comigo é assim. E, no caso, foi no museu, enquanto eu observava uma escultura. Estava ali, pensando como alguém consegue reproduzir um joelho humano em mármore, meu Deus, é muita genialidade, que coisa, olha a perfeição. Um homem pára ao meu lado. Observa a obra. Compartilha:
- Lindo, né?! Ele demorou dez anos para fazer isso.
- Nossa, incrível.
- Tu é artista?
- Não, não, sou jornalista.
- Ah, que legal. Então eu vou aproveitar para te entregar um release sobre o meu trabalho...
- Sim, claro, obrigada.
Peguei o papel, dei um sorrisinho – devo ter ficado vermelha – e fugi. Segui para outro corredor, ri sozinha, dei uma olhada rápida no material: “Carlos Estigarribia: ator e violinista performático”. Dizia ainda “escritor e dramaturgo”. O resto do texto eu só fui ler em Porto Alegre, um dia depois, no aconchego do meu apartamento e em meio a risadas.
Agora, as conclusões possíveis:
1) Preciso aproveitar momentos como este para aprender a ser cara-dura;
2) Dependendo do ponto de vista, o mundo é mesmo pura diversão.

Vamos celebrar a estupidez humana

Eu precisei parar de trabalhar, respirar fundo e contar até três depois de receber a seguinte mensagem no celular:
“Débora, sou namorada do L.C., que tu ficou um tempo atrás... Faz tempo, pelo que eu saiba, mas queria que tu me respondesse quando foi a última vez que vcs ficaram/transaram. Desculpa te incomodar. Marcella.”
Bem, nem imagino quem seja essa moça. Mas fiquei realmente preocupada com a sede investigativa dela. Não vejo o L.C. há séculos, nunca cogitei ficar com ele. Fomos colegas na faculdade por um semestre. Lembro que ele era meio “Tony Ramos”, com os pêlos saindo pra fora da camisa, essas coisas, e jornalisticamente atrapalhado. Não dá nem pra dizer que éramos amigos. Um conhecido, creio. Pensei em mandar uma mensagem espirituosa pra Marcella, porém fiquei com medo de que ela não entendesse e ainda por cima levasse a sério. O que é bem provável.
Como diriam na minha terra, tem gente que “se presta”.

quarta-feira, julho 23, 2008

"Espelho, espelho meu..."

Existe apenas um caso em que vale apena descer do salto, assumir o lado “de quinta”, jogar fora o código de ética da mulher moderna e, finalmente, destrinchar a vida pregressa do atual namorado: quando a gente descobre que não há limites para a feiúra das ex-namoradas que figuram na biografia dele. E que atire a primeira pedra quem não admite que tal descoberta faz um bem enorme para a auto-estima!

quinta-feira, julho 03, 2008

Quando o "sabe com quem tá falando?" é bem usado

"Não caí de pára-quedas nessa cadeira. Não fui criado em apartamento do Leblon. Não soltei pipa em ventilador, nem joguei bola de gude em carpete. Sou da zona norte, portanto, quero coerência nos depoimentos."

*juiz Marcello Granado, da 7ª Vara Federal Criminal, ao ouvir os militares acusados de entregar três jovens do morro da Providência a traficantes do morro da Mineira.

quinta-feira, abril 17, 2008

Vê se eu posso com isso

Sonhei com Isabella noite passada. Ou com o Alexandre Nardoni, não lembro dos detalhes.
A que ponto a coisa chega...

segunda-feira, março 31, 2008

Casinha do cachorro

Foi na década de 1980. Não lembro ao certo se ela tinha 3, 4 ou 5 anos quando o fato ocorreu. O que sei é que inventou uma maneira inconseqüente e criativa de fugir dos olhos nem tão atentos da empregada responsável por cuidar das crianças e da limpeza da casa. Numa tarde qualquer, se escondeu dentro da casinha do cachorro, que ficava no pátio de chão batido. A rua em frente – cenário de suas brincadeiras com amiguinhas e amiguinhos – era asfaltada, mas calma. Garantia que as crianças por ali ficassem livremente até o anoitecer, sem que os pais enlouquecessem, sem que grandes preocupações os perturbassem. Bem, voltando à casinha: deve ter sido construída pelo irmão mais velho ou mesmo pelo pai. Era azul e de madeira, acho. E grande, já que abrigava um vira-lata de média estatura. A menina lá se abancou, bem faceira, e levou algumas bonecas. Passou a tarde brincando. Enquanto isso, a empregada andava histérica à sua procura pela vizinhança, batendo de porta em porta. Deve ter chorado, tamanho o desespero, evocado todos os santos em orações, feito promessas, imaginado que estaria no olho da rua em poucas horas. A criança sumiu por uma tarde inteira. Deu as caras depois de brincar até cansar, no início da noite, hora em que a mãe costumava chegar do trabalho. Tinhosa, alegremente tinhosa.

Hoje, Luciana, minha irmã, a filha do meio (que sempre achou ruim ser a-do-meio), protagonista desta história real, completa 25 anos. Deu vontade de tornar público um pequeno (mas significativo!) fragmento da biografia dela. Foi a minha parceira de infância. Agora, é companheira de apartamento. Desde sempre, a pessoa com quem travo brigas homéricas seguidas de risos e demonstrações de afeto.

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

A graça de prometer e não cumprir

O ano começa, de fato, na próxima semana. Março. Fim de férias. Pensando nisso me deu vontade de fazer promessas para 2008, com toda a graça de saber que não cumprirei nem a metade. Coisa boa prometer e não cumprir. Mudar de idéia no meio do caminho. Achar que o trajeto é longo demais. Pegar um atalho. Dobrar a esquina sem pensar duas vezes. Tchau, promessa, não te quero mais. E quando algum chato perguntar: “Mas tu não tinha dito que ia...?”. Não, disse coisa nenhuma. Não sei de onde tu tirou isso. Muito capaz!

Se eu fosse uma pessoa séria, prometeria e cumpriria o que segue:

*Periodicidade na academia, três vezes por semana e nunca menos do que isso (com o 2.4 batendo na porta, não há desculpa furada que cole).

*Começar a leitura de “Os Sertões” pela vigésima vez e concluir!

*Agilizar aquela pós-graduação.

*Ligar mais para os amigos que quase não vejo. Ligar mais para os que vejo sempre. Ligar para a minha mãe antes que ela ligue dizendo que eu nunca ligo. Ao mesmo tempo, controlar os gastos com telefone e tentar arrancar algum desconto mensal expressivo da GVT.

*Passar a anotar todos os compromissos na agenda, não contar com a capacidade mental de guardar tudo (sei que não funciona).

*Ir ao cinema com mais freqüência (abandonar a desculpa de que meus horários são "complicados").

*Aumentar a média de livros lidos por mês.

*Assinar alguma revista.

*Lembrar que a poupança do Banco do Brasil não vai crescer se eu continuar escolhendo somente a opção "ver saldo" na tela.

*Beber menos, em alguns casos.

*Beber mais, em outros.

*Começar a gostar de vinho.

*Parar um pouco de ler biografia de gente louca e de ficar afetada com as histórias de vida desse povo.

*Não detestar a psicóloga.

p.s. não olharei este post no final do ano.

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

“Vocês acham que velho não faz Carnaval?”

Ficar em Porto Alegre no Carnaval significa que, se você não for assaltado na primeira noite, poderá encontrar uma noiva de 70 anos no Van Gogh, de branco mesmo, devidamente caracterizada, véuzinho e sandália de salto respeitável para uma jovem senhora. Isso por volta das 3h. Poderá ficar amigo dela e da irmã (de idade semelhante) e receber conselhos sobre como a mulher moderna (!) deve agir com os homens.

Segundo a noiva, que buscava um par, logicamente, e encontrou (!), rachar a conta está absolutamente fora de cogitação. Esqueça o “cada um paga o seu”, recomendou. Mas, por outro lado, é preciso ter a manha. “Tu não pede alguma coisa e faz ele pagar, tu sugere discretamente, dá a entender, e aí ele paga”. Seria algo do tipo: “Ai... como cairia bem uma champagne agora...”.

Se me contassem, eu não acreditaria. No entanto, testemunhei. O “noivo” surgiu, vindo de algum baile da terceira idade, e não pensou duas vezes antes de sentar junto às irmãs setentonas. Pagou champagne, guraná, comidinha. As duas se esbaldaram. Em uma espécie de pingue-pongue-do-amor-livre, hora o noivo estava sentando ao lado de uma, hora de outra, recebia carinhos na nuca e mandava baixar mais bebida. No momento em que a ala vinte-e-poucos-anos decidiu dar adeus aos novos-velhos-amigos, a frase do “noivo” resumiu a noite: “Vocês acham que velho não faz Carnaval?”.

Ok, não acho mais.

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

Progressistas, malucas e sensacionais

Era 1966. Estavam em uma boate no Rio de Janeiro:

Maysa: "Gauchinha de merda, você não canta nada".
Elis Regina: "Não me provoca não, sua pinguça".

Em seguida, voou uma garrafa de uísque. Roberto Menescal a teria segurado no ar, antes que o pesado objeto atingisse Elis.
Maravilhosamente doidas essas duas.

*quem conta é Lira Neto (Editora Globo, 2007) em "Maysa – Só numa multidão de amores"

quarta-feira, janeiro 23, 2008

Eu é que sei, não venha me dizer

Só você sabe se é possível encher um copo de requeijão, uma piscina de plástico, o Guaíba ou um oceano ao reunir todas as suas angústias tolas.

terça-feira, janeiro 15, 2008

Meta para 2008: sentir menos sono, se é que isso é possível

Eu juro que, neste ano, quero sentir menos sono. Para que se tenha idéia da gravidade da situação, sou o tipo de pessoa que dorme até em pé, como os cavalos. Com um sofazinho ou uma cama disponível, aí o estrago é realmente feio. Durmo a hora que for, após ter tomado chimarrão, café ou red bull, com a barriga cheia ou vazia, com sono atrasado ou não, de ressaca... bem, aí nem se fala. Posso até colocar o celular para despertar, mas quando o aparelho começa a fazer aquele barulho desgraçado, aperto o dedo contra alguma das teclas que nunca sei qual é e o som cessa. Até chego a pensar "preciso levantar agora", mas a dormência que toma o meu corpo não permite. Sinto como se mãos ou correntes ou cordas me amarrassem à cama, como nas matérias do Diário Gaúcho em que mães acorrentam os rebentos viciados em crack junto ao
móvel. O problema é que, quando acordo, penso em todas as coisas que deixei de fazer, que estão pendentes, que eu não terei tempo de concretizar depois. E me arrependo por ter tomado o caminho mais fácil. Livros que deixaram de ser lidos, passeios na Redenção que ficaram só no plano imaginário, visitas aos amigos que não foram efetivadas. Eu viveria mais se dormisse menos. 2008, vê se dá uma ajuda: eu tenho tanta coisa pra viver...

sexta-feira, dezembro 28, 2007

A Lista*

Fim de ano deixa as pessoas meio bobocas (principalmente eu). Hoje, por exemplo, escutei uma música no rádio enquanto arrumava a mala para mais uma viagem de réveillon. Não consegui parar de pensar na letra, não sosseguei enquanto não descobri quem era o compositor. A criatura que escreve e musica uma coisa dessas não precisa fazer mais nada na vida. (descobri que tenho medo de 2008 e dos dez próximos an0s)

Faça uma lista de grandes amigos
Quem você mais via há dez anos atrás
Quantos você ainda vê todo dia
Quantos você já não encontra mais
Faça uma lista dos sonhos que tinha
Quantos você já desistiu de sonhar!
Quantos amores jurados pra sempre
Quantos você conseguiu preservar
Onde você ainda se reconhece
Na foto passada ou no espelho de agora
Hoje é do jeito que achou que seria?
Quantos amigos você jogou fora
Quantos mistérios que você sondava
Quantos você conseguiu entender
Quantos segredos que você guardava
Hoje são bobos ninguém quer saber
Quantas mentiras você condenava
Quantas você teve que cometer
Quantos defeitos sanados com o tempo
Eram o melhor que havia em você
Quantas canções que você não cantava
Hoje assobia pra sobreviver
Quantas pessoas que você amava
Hoje acredita que amam você

*Oswaldo Montenegro

quarta-feira, novembro 14, 2007

Na linha de tiro, eu entendi

Quando disse aos colegas de trabalho que iria na tal “instrução e competição de tiro” da Brigada Militar para jornalistas, nem eu sabia o que havia motivado a minha decisão, o que eu ia fazer lá. Achei que ter um pai policial era uma boa desculpa. E fui. Eu não sabia, mas estava aceitando uma possibilidade de encontro comigo mesma, com a minha infância, com o meu pai. Com protetores auriculares, só conseguia ouvir o barulho abafado dos disparos e o som do meu coração, batendo rápido, nervoso, descompassado. O cheiro de pólvora era familiar, literalmente. Na hora de apertar o gatilho, ali, na linha de tiro, eu entendi.

[idos de 1990] Não sei a idade ao certo, mas acho que lá pelos 10 anos de idade eu costumava acompanhar meu pai em incursões no mato para ele treinar a pontaria. Minha irmã morria de medo. Eu gostava. O tiro ao alvo do meu pai era “roots”. Nada de proteção para o ouvido ou alvo refinado. Ele levava uma tábua, um pedaço de pau que fazia as vezes de vítima. Acho que usava telhas também. Enfim, tudo feito sem glamour, a vida como ela é. Eu curtia. Olhava atenta. Tentava entender a velocidade do projétil. Depois, buscava os cartuchos correndo. Fazia o papel de auxiliar. E no dia em que ele ofereceu “Quer atirar?”, eu não pensei duas vezes.

Pena que a gente nem imagina. Os momentos-chave vividos na infância deveriam vir acompanhados de legenda: “Guarde isso em alguma gaveta confiável do seu cérebro. Será de extrema importância para compreender fatos subseqüentes”. Mas não é assim que a banda toca, infelizmente.

[final de 2007] Era hora de apertar o gatilho e a experiência dos tempos de criança pouco importava naquele momento. Havia platéia. Jornalistas olhando, colegas de trabalho, brigadianos. E o pior. Meu pai não estava ali para dizer como eu tinha que posicionar a perna, como pegar o revólver e, principalmente, não estava ali para segurar a arma comigo e ficar na retaguarda para o caso de a força do disparo jogar o meu corpo para trás. Então eu entendi tudo. Aquele tiro era meu, sem a ajuda de ninguém, sem proteção paterna. A coisa agora era comigo. Doze disparos em seqüência, dois deles calculadamente mirados e acertados no peito do alvo. O resto foi “barberagem”. Tiro na mão do boneco e outros nem perto.

Se não fosse a experiência de acompanhar os treinamentos do meu pai, dificilmente eu teria participado da instrução de tiro da BM. Aliás, eu nunca teria ido, vamos falar a verdade. E o mesmo serve para diversas outras situações em que eu não teria me metido se não fosse a influência policialesca dele. Sensação de perigo iminente, aceleração do coração, mira, barulho ensurdecedor, cheiro de pólvora, adrenalina. Entendi meu pai, a ausência dele, o olhar dispersivo, a vontade de que as filhas aprendessem a dar o próprio tiro. Há dez anos, ele estava me ensinando a crescer, estávamos crescendo juntos, e eu nem imaginava isso.

terça-feira, setembro 18, 2007

Escolhi o jornalismo porque sou imitona

Eu escrevia poemas aos 13 anos. Péssimos, lógico. Estava na sétima série. Sofria por amor. Escutava Legião Urbana, Cidadão Quem, Kid Abelha, tudo próprio da idade. E rádio. Era louca por FM. Dentro de mim, existia uma dor que não cabia no mundo e que as pessoas não estavam muito interessadas em saber do que se tratava (a não ser a minha psicóloga na época, que era paga pra isso). O jeito era escrever. Enchia diários, agendas e caderninhos que hoje são motivos de riso (sim, eu guardei tudo e volta e meia dou uma olhada para rolar de rir). Numa das agendas encontrei a palavra “saldade” escrita umas 57 vezes. Eu já estava meio velha para cometer esses erros de português, mas tudo bem. Morria de medo que a minha mãe lesse, que a minha irmã visse, que os colegas soubessem. Eram os meus segredos. Apesar do temor, escrevia. Ouvia rádio. Gravava músicas em fitas k7. Lia livros e me apaixonava pelos autores (se o Marcelo Rubens Paiva imaginasse...). Até que um dia me dei conta de que queria ser como os locutores que falavam no rádio, como os escritores que tinham coluna em jornal, como os repórteres que contavam as maravilhas da profissão quando eram entrevistados. Queria causar nas outras pessoas aquela admiração/identificação/e-por-que-não-paixão? que eu sentia por eles. Ser referência. Opinar sobre música, teatro, cinema, política (economia eu realmente nunca me interessei). Falar coisas nas quais as pessoas iam sair acreditando piamente. Passei a sonhar com redações esfumaçadas, amigos boêmios, vida social agitada. Mas eu tinha 14 anos, uma vida mais ou menos numa cidade provinciana e uma timidez que faria qualquer ser racional achar que aquela história não dava pé. Não sei direito como, mas com 18 anos eu estava na Famecos, a faculdade dos sonhos, mami propondo ano-novo em Cidreira para conseguir manter as mensalidades em dia, época de vacas magras. Depois vieram estágios que rendiam trocados para comprar calças jeans e tomar cerveja por aí, amigos e paixonites jornalisticamente interessantes ou não, mudança de mala e cuia para a capital. Foi mais ou menos assim que eu cheguei aqui, às vezes até sem acreditar que tudo é de verdade. Agora, caminho percorrido, não lago o osso!